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"Não queria ser cake design, o meu sonho sempre foi cinema e TV"

CONDE DOS BOLOS

Não se considera um confeiteiro da elite, mas é no seu atelier onde muitos famosos recorrem quando o assunto é bolos. Em Angola, o seu primeiro emprego foi numa seguradora, mas a confeitaria falou mais alto. Já fez um bolo avaliado em 1,5 milhões Kz

Começou agora um novo ano. Já recebeu encomendas de bolos?

O ano começou bem, confesso que não esperava esse número de solicitações. A semana passada recebemos mais encomendas de comida do que de bolos. Mas já temos tido dias de correria.

Quanto facturou em Luanda?

Não tenho noção do valor exacto, mas juntando os valores dos eventos realizados e dos bolos, aproximadamente 90 milhões Kz.

Ser confeiteiro sempre foi um sonho?

Fazer bolos nunca foi o meu sonho. O meu sonho sempre foi cinema e TV, mas o bolo é aquele dom que nasce desde criança. Desde criança que faço bolos, apesar de ter apoios dos meus pais, mas não queria. E hoje gosto que faço.

Mas o conde não é só dos bolos...

Eu não queria ser cake design nem pasteleiro, sempre trabalhei com moda e teatro. Entretanto, após terminar os estudos em Portugal, regressei a Angola para trabalhar numa seguradora. E comecei também a fazer bolos por encomenda. Quando dei por mim, estava a despedir-me da seguradora e a dedicar-me só aos bolos. Depois comecei a misturar a moda e os bolos, realizando eventos de moda, onde incluía bolos, como o Miss Mão de Fada e Benguela Fashion Show.

Há quanto tempo tema confeitaria?

Há 12 anos.

E quantos anos trabalhou para a seguradora?

Trabalhei apenas dois anos.

A par do core business também tem-se dedicado à formação...

Sim, há seis anos que tenho a Academia de Cake Design By Conde em Luanda e há um ano que abrimos também em Benguela.

Há muitos interessados em aprender a fazer bolos?

Em Luanda sim, fizemos turmas de seis, no máximo de sete pessoas por mês. Não mais porque não se trata de um trabalho de apenas ensinar a fazer massa, tem a parte da decoração, confeccionar, recheio, é muito personalizado e a estrutura também não permite mais.

Quanto investiu para abrir a academia em Benguela?

Para abrir a Academia de Cake Design By Conde em Benguela investimos 8 milhões Kz. Fizemos agora um ano. Em termos de lucros ainda não tivemos retorno.

Perspectiva abrir outras academias noutras províncias do País?

Vou ser muito sincero. A minha perspectiva de abrir em outras províncias foi um pouco cortada, porque abrimos em Benguela e o que se nota com essa grande crise financeira é que o poder de compra das províncias não se compara, nem metade, a Luanda. Em Benguela estamos abertos por gosto, paixão, porque eu sou de lá, porque não é um negócio que dá rentabilidade. Benguela tem uma produção fraca. Nota-se que a crise nas províncias está muito mais agravada que em Luanda. E isso cortou o meu sonho de expandir para o Lubango e Huambo como eu queria.

Acha que o negócio de pastelaria vem acudir a situação do desemprego no País?

Sem dúvida, recebo muitas alunas, algumas por desespero porque pretendem fazer negócio em casa, com desejo de aprenderem uma profissão. Aliás, 80% delas vêm com esse objectivo e conseguem.

Quanto custa uma formação na academia do Conde?

Uma formação completa custa 240 mil Kz. Durante um mês passamos aos formandos o essencial.

É reconhecida pelo Instituto Nacional de Emprego e Formação Profissional (INEFOP)?

Sim, temos parceria com o INEFOP. Durante a pandemia muita gente recorreu às formações de confeitaria.

Trata-se de uma moda?

Sim, é uma moda criada por necessidade. As pessoas são confeiteiras por gosto, a maioria, mas a necessidade fala mais alto. E a procura por bolo confeitado actualmente cresceu muito.

O Conde realiza também eventos?

Sim, hoje, para além dos bolos, temos também a fábrica de eventos.

Quantos colaboradores trabalham no seu atelier?

Em Luanda somos um total de 12 pessoas, em Benguela são três.

Que avaliação faz do mercado nacional nos sectores onde actua?

Comparado de há 12 anos quando comecei, há uma diferença abismal. Temos muita concorrência. Devido às formações, temos muitas pastelarias abertas e tem muitas senhoras confeiteiras que fazem bolos em casa, tal como eu comecei. A concorrência é enorme. Ainda assim, os negócios continuam, o que nos dá uma noção de quanto Luanda tem capacidade de consumo. Em termos de eventos, a concorrência ainda é maior. Há menos pessoas a casarem desde a pandemia e há muitas empresas a realizarem eventos.

O Conde dos Bolos é apenas para a elite?

Não me considero da elite, porque quando comecei fazia bolos para os clientes que apareciam, uns eram da elite e outros não. Depois comecei a aparecer nas televisões e a vender a imagem de outra forma, então começaram a aparecer os clientes da elite, mas sempre mantive a minha produção para vários públicos. Procuro manter os meus preços de forma a ter uma camada média. A classe média e alta consegue comprar os meus bolos. Talvez a classe baixa poderá não ter capacidade.

Quais são os vossos preços?

Os preços variam muito. Para casamento, tenho clientes que casam com bolos de 190 mil Kz, outros com bolos de 300 mil Kz. Consoante o tipo de bolo, o tamanho, o design. Um bolo de aniversário confeitado pode custar 34 mil Kz com placas, um tamanho considerável.

Qual foi o bolo mais caro que já fez?

O bolo mais caro foi um castelo avaliado em 1,5 milhão Kz.

Da elite, para quem já fez bolos?

Já fiz bolos para o ex-Presidente José Eduardo dos Santos, para a cantora Ary, para a modelo Tatiana Durão, para o actor Sílvio Nascimento, para a apresentadora de televisão Dina Simão e para a Juddy da Conceição, entre outros.

Já recebeu reclamações?

Já sim! Já tive reclamações quando trabalhava sozinho, em função do número de encomendas. Havia um ou outro que não saía bem. Actualmente, como equipa também há reclamações, às vezes por distracção devido ao volume de tarefas. Outras vezes o bolo sai do atelier bem, mas o cliente não o conserva devidamente.

Quando é que volta às passarelas ou à televisão?

Deixei a moda mas mantenho a profissão de actor. Voltei a representar. Participei do filme "Desejos Cruzados", que estreia em Fevereiro, produzido pela agência Utima.

E qual é a sua percepção sobre o cinema nacional?

Já fiz teatro, novelas, mas é a primeira vez que faço cinema. Olho para um mercado onde os realizadores e produtores não se ajudam. É cada um por si. Eu vi as dificuldades do realizador, isso entristeceu-me porque mostra que, no fundo, não vejo o angolano unido. E isso pode impedir o crescimento do cinema nacional. Vi rivalidade e egoísmo no campo do cinema, sendo desnecessário. Na parte dos actores vi muita união. Se os realizadores não estiverem unidos, não há crescimento e vamos estar sem indústria de cinema. Vejo a coisa muito monopolizada, por parte dos grandes, sendo muito negativo para Angola.

Pretende um dia se reformar dos bolos?

Nunca vou abandonar a 100% a confeitaria. Está fora de questão. Consigo estar ausente e dedicar-me a outras coisas. O cinema quero manter, mas quero dedicar-me a outras actividades. Gosto muito de eventos, gostaria de abrir um negócio que estivesse ligado à moda, quem sabe ainda em 2023.

Como realizador de eventos, consegue explicar por que razão são tão caros?

Há um motivo: os fornecedores. Os fornecedores encarecem os produtos. Desde a alimentação, os técnicos, por isso os eventos são caros. Há seis anos o material era muito caro e as importações eram difíceis. Houve melhorias mas os preços continuam altos devido à importação.

(Leia o artigo integral na edição 707 do Expansão, de sexta-feira, dia 13 de Janeiro de 2023, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)