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Angola

De camiões a pontes improvisadas tudo serve para rentabilizar a chuva

FALTA DE INFRAESTRUTURAS EM LUANDA PROMOVE NEGÓCIOS INFORMAIS EM TEMPO DE CHUVAS

Passagens adaptadas com paus ou pedras nas estradas e ruas alagadas, transportar pessoas nas costas ou "fita-colar" o pé são alguns dos negócios mais procurados durante a época chuvosa, na periferia de Luanda. Há zonas onde os táxis desaparecem para dar lugar a camiões que transportam pessoas na carroçaria, cobrando 300 Kz por passageiro.

O mau estado em que se encontram as estradas e ruas de alguns bairros da cidade de Luanda tem motivado, em época chuvosa, a subida dos preços de táxi e dos transportes informais. Aliada a esta subida, surgem outras actividades económicas que, apesar de atraírem clientes (que assim evitam sujar-se, molhar os pés ou deslocar-se para outra zona da cidade), são vistos como formas de extorsão.

A venda de sacolas plásticas para "fita-colar" os pés, pontes improvisadas com paus ou pedras nas estradas e ruas alagadas, transporte de pessoas às costas, entre outros, são os negócios que surgem em muitos bairros de Luanda, na época de chuva, onde existem vias esburacadas.

"Às vezes, para sair de casa para a universidade ou para qualquer um outro sítio tenho de estar munida de, pelo menos, 2.000 Kz para cobrir estas despesas", disse Yolanda Menezes, moradora no Cazenga, acrescentando: "muitos destes jovens arranjam estas maneiras de "extorquir" dinheiro às pessoas por falta de emprego e para garantir a sua sobrevivência. Seria obrigação dos moradores fazer pequenas passagens nos sítios alagados para poder beneficiar a todos".

Por exemplo, quem sai do Grafanil Bar para o bairro Calawenda, ou da Rua dos Cabritos para a Santa Madalena, ambos no município do Cazenga, se não quiser pisar em lama ou pôr o pé em águas paradas, muito comuns nas ruas daquelas localidades, tem quatro opções: gastar 100 Kz para passar por cima de entulho de pedras em forma de ponte (devido à elevada procura o processo é demorado porque apenas passa uma pessoa de cada vez); pelo mesmo valor pode subir nas costas de um jovem "mixeiro" ou recorrer aos serviços de jovens que vendem sacolas para "fita-colar" os pés. Quem tiver um pouco mais de dinheiro pode dar-se ao luxo de "apanhar" uma motorizada, que custa entre 300 kz a 500 Kz, consoante o destino do passageiro.

Há zonas em que o serviço de táxi desaparece para dar lugar às carrinhas e camiões. Na zona da Estalagem, município de Viana, para quem apanha um táxi na Pracinha da Mamã Gorda para os bairros Ana Paula, Cambwá, Bonzela, Baixa de Cassanje ou Mirú, a viagem nos dias normais custa 200 Kz. Na época das chuvas sobe para 300 Kz por lugar, mas agora na carroçaria de uma carrinha ou de um camião.

Germano Dende é motorista de um camião do tipo Kamaz. O homem trabalha na zona da Estalagem, a transportar carga, mais concretamente areia, blocos e outros materiais de construção civil, a quem solicita os seus serviços. Ao Expansão contou que, quando chove faz serviço de táxi e chega a facturar 50 mil Kz por dia. "Quando as estradas ficam alagadas, aqui não há táxis e as pessoas ficam aflitas, muitas vezes sem saber como vão chegar a casa. E eu aproveito para facturar", disse, de forma descontraída.

Défice de infraestruturas

Há também o negócio das sombrinhas ou guarda-chuvas, em que os preços variam de 700 Kz a 1.500 Kz. De acordo com uma zungueira, que preferiu o anonimato, quando não há chuva o negócio é mais barato e quando chove os preços sobem um pouco mais devido ao aumento da procura. "Se estiver a chover durante o dia todo, chego a vender até 30 sombrinhas pelos diversos bairros por onde passo. Mas se não há chuva vendo apenas metade", ilustrou.

Para o engenheiro civil Josias Tinta, estes negócios surgem, em primeira instância, devido ao nível de instrução e às condições sociais das famílias. "As pessoas com o mínimo de informação sabem que evitar pisar águas paradas e das chuvas protege de algumas doenças, porém, do outro lado estão cidadãos com pouca capacidade de escolha, que olham para as dificuldades como uma oportunidade para facturar alguma coisa. São actividades de subsistência", sublinhou.

O especialista não considera que os camiões que fazem serviço de táxi sejam motivados pelo mau estado das estradas, argumentando que "nestas zonas, maioritariamente, não existem estradas, não há esgotos, as ruas muitas vezes ficam submersas após fortes enxurradas e, como o ser humano procura soluções para a satisfação das suas necessidades, a solução que encontrou para este caso é o transporte de camião".

Josias Tinta salienta que a "extorsão de dinheiro" por parte dos taxistas na época chuvosa é um problema de incapacidade do Estado em dar resposta a um "conjunto de situações que já poderiam ter sido resolvidos". "As estradas pouco irão servir se não tivermos redes técnicas que possam receber as águas pluviais, melhores arruamentos, rede de esgotos e, claro, boas estradas", justificou.

O especialista lembra também que o País ainda investe em estradas que, ao invés de servirem como solução, passam a ser um problema por causa das elevações e das falhas técnicas ao nível da construção, tornando os bairros adjacentes inundados ou com problemas de saneamento. Os motoristas que lá passam aumentam o preço dos serviços e as autoridades ficam reféns: repor a legalidade dos preços afasta os "candongueiros" destas zonas, o que faz reduzir o movimento no interior dos bairros (que também não têm iluminação pública), com consequências directas no aumento da criminalidade.