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Grande Entrevista

"A nossa inflação é do lado da oferta e isso não se combate com taxas de juros altas"

JOB DE SOUSA | ECONOMISTA

O economista Job de Sousa entende que os meios usados para o combate à inflação não são os mais adequados. Sendo uma inflação do lado da oferta, como é o nosso caso, combate-se com taxas de juros atractivas, com uma política humanitária expansionista, visando o crescimento económico

A economia nacional tem acelerado com o PIB a crescer 5,23% no primeiro trimestre, impulsionado sobretudo pelo desempenho do sector não petrolífero, segundo dados oficiais. Será que estamos perante uma verdadeira diversificação da economia?

Estamos a assistir ao chamado take off, em que a economia, pelos vários fundamentos internos e pelos seus factores produtivos, começou, em grande parte, em 2021, 2022, a dar os seus primeiros impulsos de crescimento económico. Entretanto, mais para 2024 e 2025, sentimos um crescimento, segundo o Instituto Nacional de Estatística (INE), mais voltado para o sector não-petrolífero. Entretanto, eu diria que estamos a caminhar. Ainda não estamos, de facto, perante uma diversificação da economia, na medida em que a diversificação é um processo que se faz ao longo do tempo.

Nota algumas mudanças nesse processo?

Há sim alguma melhoria, tendo em conta aquilo que vivemos de 2014 a 2021, ou se quisermos entre 2014 e 2024, a chamada década perdida, na qual a soma global de crescimento económico foi negativa em cerca de 3,9%. Portanto, o que estamos a assistir hoje é o País a tentar recuperar os níveis de crescimento económico para compensar esse crescimento negativo a que assistimos nesses últimos anos.

Mas este crescimento económico está sempre abaixo do crescimento da população, o que significa que estamos sempre a aumentar a pobreza. É preciso alguma fórmula mágica pra inverter este cenário?

Fórmula mágica, provavelmente não diria, mas disciplina. O que deve ser feito é deixarmos de olhar para um crescimento económico voltado para o sector primário. A agricultura, apesar de hoje ter níveis consideráveis, segundo o INE, inda é um sector de remuneração muito baixa, bem como o comércio e isto vai impactando na qualidade de vida da população. Devemos olhar para um cenário de crescimento económico voltado para a inovação, a transformação e a industrialização. É este cenário do sector económico que vai proporcionar uma melhor contribuição para a economia, na remuneração, e mudar esse quadro que estamos a assistir, no qual a economia, apesar de crescer, a população continua numa pobreza extrema.

O êxodo rural preocupa-o?

Fala-se pouco disso, mas é um fenómeno que devemos ter em conta, porque o êxodo rural para as cidades e a abertura que o País deu ao mundo exterior faz com que as necessidades internas sejam cada vez maiores, ou seja, além do crescimento populacional, que anda acima do crescimento económico, também nos deparamos com este fenómeno. E quando isso acontece vamos continuar a ter esse cenário em que a economia, apesar de assistir a uma taxa de crescimento positiva, não vamos conseguir recuperar o rendimento da população que foi perdido ao longo desse tempo, por conta também da inflação, que corrói o bolso do...

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