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Opinião

De regresso às aulas

De regresso às aulas

Que regressem os alunos. Que regressem os professores. Que regressem os livros. Que regressem os sonhos. Mas, acima de tudo, que regresse a aprendizagem ao centro da nossa ideia de escola.

Há qualquer coisa de especial no regresso às aulas. As ruas ficam diferentes. De manhã cedo, multiplicam-se os uniformes, as mochilas, os cadernos debaixo do braço, os pais apressados, os táxis mais cheios e aquela mistura de sono e entusiasmo que acompanha quem volta à escola. Para alguns, é simplesmente o fim das férias. Para outros, é o começo de uma nova etapa. Para milhares de crianças, sobretudo as que entram pela primeira vez numa sala de aula, é o primeiro encontro com um universo que pode mudar para sempre o curso das suas vidas.

Angola voltou às aulas.

O ano lectivo 2026/2027 arrancou oficialmente com mais de 9,8 milhões de alunos e uma rede superior a 12 mil escolas. O Governo anunciou ainda 145 novas escolas no âmbito do projecto "Minha Escola, Meu Futuro", a reabertura de estabelecimentos requalificados, milhões de manuais escolares distribuídos às províncias e um concurso público com 9 mil vagas, das quais 8 mil destinadas a professores.

O Programa Nacional de Alimentação Escolar chega, por sua vez, a mais de três milhões de alunos. São números que impressionam. Mas números também podem esconder histórias. Por detrás dos 9,8 milhões estão milhões de crianças com nomes, sonhos, dificuldades e capacidades diferentes. Há a criança que percorre quilómetros para chegar à escola. A que divide o livro com o irmão. A que chega à sala com fome.

A que tem talento para a matemática, mas nunca teve quem descobrisse isso. A que sabe ler, mas não compreende o que lê. A que abandonará a escola antes de concluir o ciclo. E há também aquela que, graças a um professor atento, poderá descobrir que o seu futuro é muito maior do que aquilo que imaginava.

É aqui que o regresso às aulas deixa de ser apenas uma questão de calendário. Passa a ser uma questão de país. Porque construir escolas é fundamental. Colocar carteiras nas salas é fundamental. Distribuir manuais é fundamental. Contratar professores é fundamental. Mas tudo isso é meio, não é o fim. O verdadeiro indicador do sucesso de uma escola não é apenas quantas crianças entram pela porta. É quantas saem dela sabendo mais, pensando melhor e estando mais preparadas para a vida. Esta talvez seja uma das perguntas mais importantes que deveríamos fazer neste início de ano lectivo.

Estamos a matricular crianças ou estamos a educar realmente? A pergunta não é provocatória. É necessária. Os próprios dados disponíveis mostram que Angola avançou significativamente na expansão da oferta educativa, mas continua a enfrentar dificuldades na permanência e na conclusão dos estudos. O UNICEF estima que cerca de 17% das crianças em idade escolar ainda estão fora do sistema.

No ensino primário, a taxa líquida de matrícula chegou a 82%, mas cerca de 36% das crianças matriculadas não concluem esse nível. No ensino secundário, a diferença entre o meio urbano e o rural continua particularmente expressiva.

Ou seja: a batalha pelo acesso ainda não terminou, mas a batalha pela aprendizagem já não pode esperar. E talvez seja aqui que devamos olhar com mais atenção para o professor. No discurso público sobre educação, falamos frequentemente de escolas, carteiras, manuais, computadores e edifícios. Falamos menos do homem ou da mulher que, todos os dias, entra numa sala com dezenas de crianças e tenta fazer com que cada uma delas aprenda. Uma escola pode ser nova.

A carteira pode ser nova. O manual pode ser novo. Mas se o professor não estiver preparado, motivado e apoiado, a escola continuará a ser apenas um edifício. Por isso, a valorização dos professores não pode resumir-se ao salário, embora este seja obviamente importante. É preciso falar também de formação contínua, acompanhamento pedagógico, condições de trabalho, progressão profissional, gestão escolar e distribuição equilibrada dos docentes pelo território nacional. Os dados do próprio sector mostram que houve avanços na qualificação docente.

Ainda assim, permanecem necessidades importantes de formação e distribuição de professores, sobretudo nas zonas mais vulneráveis. Neste regresso às aulas, talvez devêssemos olhar para além das fotografias das cerimónias de abertura, dos discursos e dos números de matrículas. Precisamos perguntar como está aquela escola no bairro mais distante. Precisamos perguntar se a criança consegue chegar até ela. Precisamos perguntar se há água, casas de banho, alimentação, segurança e condições mínimas de aprendizagem. Precisamos perguntar se a professora da primeira classe tem os instrumentos necessários para ensinar uma criança a ler.

Precisamos perguntar o que acontece à criança que fica para trás. Precisamos perguntar o que acontece à adolescente que abandona a escola. E precisamos perguntar se estamos a preparar os nossos jovens apenas para passar de classe ou para enfrentar um mundo que muda a uma velocidade que a escola já não pode ignorar. A escola do nosso tempo precisa ensinar Português e Matemática, evidentemente. Mas precisa também ensinar a pensar, pesquisar, questionar, comunicar, criar, colaborar e resolver problemas-

Porque Angola não precisa apenas de mais crianças dentro das escolas. Precisa de mais crianças a aprender dentro delas. E essa diferença pode determinar

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