Saltar para conteúdo da página

Logo Jornal EXPANSÃO

EXPANSÃO - Página Inicial

Opinião

Estatísticas felizes

EDITORIAL

A credibilidade estatística não se decreta. Constrói-se. Há ainda um pequeno pormenor: investidores também lêem estatísticas. Bancos multilaterais, agências de rating e empresas internacionais igualmente. Todos gostam de números bons. Mas gostam muito mais de números em que possam confiar.

Na rua encontramos preços a subir, famílias a fazer contas antes de chegar à caixa do supermercado, jovens à procura de emprego e cidadãos para quem o salário tem cada vez mais mês pela frente. Nas estatísticas, porém, a paisagem é mais simpática: a economia cresce, o desemprego desce, a diversificação acontece e quase todos os indicadores avançam na direcção certa. Talvez o problema esteja na rua. Ou talvez esteja na dificuldade em explicar como alguns números oficiais chegam a conclusões tão distantes da realidade que os cidadãos encontram quando abrem a carteira ou olham para os que rodeia.

Porque números excessivamente simpáticos para quem governa acabam por ser um presente envenenado. Se forem sistematicamente recebidos com desconfiança, deixam de ajudar o próprio Executivo. Um crescimento do PIB que ninguém acredita, uma descida da inflação que muitos não reconhecem ou uma melhoria de determinado indicador social que parece incompatível com aquilo que se observa nas ruas, acabam por alimentar mais suspeitas do que confiança.

É aqui que entra o Instituto Nacional de Estatística (INE). Angola precisa de um INE forte, tecnicamente independente e respeitado pelas universidades, empresas, investidores, Governo e cidadãos. Porque um país sem estatísticas credíveis governa às escuras. O problema começa quando professores universitários, investigadores e economistas questionam os números e encontram dificuldades em perceber como foram construídos determinados indicadores, que amostras foram utilizadas ou qual foi o impacto das alterações metodológicas.

Mudar metodologias não é pecado. É necessário. O problema surge quando a mudança produz resultados particularmente simpáticos para a narrativa oficial sem uma explicação suficientemente robusta para convencer os cépticos. Aí nasce uma coincidência maravilhosa: muda-se a metodologia e melhora o País.

Podíamos experimentar noutros sectores. Se o trânsito piorar, mudamos a forma de contar os engarrafamentos e os acidentes. Se os hospitais estiverem cheios, redefinimos o conceito de espera. Se o salário acabar a meio do mês, revemos metodologicamente o conceito de mês. Resolvia-se muita coisa.

A caricatura é naturalmente injusta para os técnicos competentes que trabalham no INE. É precisamente por respeito ao seu trabalho que a instituição deve abrir metodologias, amostras, bases de cálculo, revisões e limitações ao escrutínio académico.

A credibilidade estatística não se decreta. Constrói-se. Há ainda um pequeno pormenor: investidores também lêem estatísticas. Bancos multilaterais, agências de rating e empresas internacionais igualmente. Todos gostam de números bons. Mas gostam muito mais de números em que possam confiar. Por isso, defender um INE credível não é atacar o Governo. É proteger o País. Angola não precisa de estatísticas optimistas nem pessimistas. Precisa de números exactos. Daqueles que sobrevivem a professores, investigadores, jornalistas, empresários e cidadãos armados de calculadoras. Porque a melhor estatística é aquela que ninguém precisa de defender. Muito menos o Governo!

Logo Jornal EXPANSÃO Newsletter gratuita
Edição da Semana

Receba diariamente por email as principais notícias de Angola e do Mundo