Mau Humor
Criticar quando é preciso. Elogiar quando é justo. Discordar sem insultar. Reconhecer quando o outro tem razão. Admitir quando fomos nós que errámos. E, de vez em quando, rir. Sobretudo de nós próprios. Porque dificuldades já temos muitas. Não precisamos de acrescentar a todas elas uma crise nacional de mau humor.
Há qualquer coisa no ar. É uma espécie de mau humor colectivo instalado nos corredores da política, nos gabinetes das empresas, nas reuniões, debates e, naturalmente, nas redes sociais. Parece existir um campeonato nacional da indignação. Ganha quem estiver mais zangado. Há pontos extra para quem franzir o sobrolho, utilizar três adjectivos negativos na mesma frase e transformar uma pequena divergência numa questão de Estado.
Elogiar tornou-se uma actividade de risco. Quem reconhece que alguma coisa correu bem pode ser acusado de estar alinhado ou, no mínimo, distraído. Por isso, quando o elogio é inevitável, vem protegido por um "apesar de", um "embora" ou um "não obstante". É o elogio com capacete e colete à prova de bala.
Já a crítica não sofre dessas cautelas. Chega musculada e pronta para combate. Uma decisão raramente está apenas errada: é "absolutamente desastrosa". Uma ideia não é simplesmente discutível, é "completamente absurda". E quem discorda passa rapidamente a ser suspeito de alguma coisa.
Criámos até uma curiosa associação entre pessimismo e inteligência. Quanto mais sombria a análise, mais profunda parece. Quem diz que tudo vai correr mal é prudente e lúcido. Quem admite que alguma coisa pode correr bem arrisca-se a ser considerado ingénuo. Talvez estejamos a precisar de sorrir um pouco mais.
Aliás, o mau humor ainda não entrou nas Contas Nacionais, embora pareça crescer acima do PIB. Há uma diferença entre espírito crítico e espírito permanentemente negativo. O primeiro identifica problemas para tentar resolvê-los. O segundo demonstra, com enorme satisfação, que nada presta e qualquer tentativa está condenada antes de começar. Também seria útil recuperarmos uma competência em vias de extinção: rir de nós próprios. Erramos. Todos.
Governantes, empresários, gestores, jornalistas, economistas e até aqueles comentadores que possuem soluções simples para problemas que o resto da humanidade tenta resolver há décadas. Admitir um erro não diminui ninguém. Rir de uma asneira própria pode ser mais saudável do que procurar alguém a quem atribuir a culpa. Nas empresas, convém lembrar que cara fechada ainda não consta dos requisitos académicos para exercer cargos de chefia. Na política acontece algo semelhante. É possível discordar sem transformar o adversário num inimigo.
É possível reconhecer mérito numa decisão de quem pensa diferente sem mudar de campo. E até dizer "tem razão" sem convocar uma conferência de imprensa para explicar que continuamos em desacordo em tudo o resto. Precisamos de debate, contraditório, fiscalização e crítica. De exigir resultados a quem governa, responsabilidade a quem gere e competência a quem decide. Mas sem transformar cada conversa numa batalha e cada diferença de opinião numa declaração de guerra. Boa disposição não é irresponsabilidade. Optimismo não significa ignorar a realidade. E reconhecer uma coisa bem feita não obriga ninguém a assinar uma declaração de apoio eterno ao seu autor. Talvez seja apenas necessário baixar um pouco o volume. F.D. Criticar quando é preciso. Elogiar quando é justo.
Discordar sem insultar. Reconhecer quando o outro tem razão. Admitir quando fomos nós que errámos. E, de vez em quando, rir. Sobretudo de nós próprios. Porque dificuldades já temos muitas. Não precisamos de acrescentar a todas elas uma crise nacional de mau humor. E, se ela já estiver instalada, pelo menos que ninguém proponha criar uma comissão para a estudar.














