O negócio da cultura
Temos de olhar para esta actividade com uma perspectiva de geração de riqueza, e não aquela visão antiga do subsídio para manter a dependência dos artistas agarrada a uma trela que limita o seu crescimento. Precisamos de empresários de cultura que possam trabalhar livremente e ganhar dinheiro, sem que isso faça comichão ao poder.
A cultura e o desporto, tradicionalmente parentes pobres da governação, utilizados em períodos eleitorais como agregadores de votos, mas fundamentais para a manutenção do orgulho nacional, podem também ser um factor decisivo para a diversificação económica e o desenvolvimento social do País. Basta olhar para o Brasil para perceber este fenómeno e potencial.
São duas áreas diferentes com motivações também diversas. Se olharmos para aquilo que hoje se chama a indústria criativa, houve sempre um certo receio em deixar voar as potencialidades artísticas dos cidadãos, porque, com o seu crescimento e desenvolvimento intelectual, normalmente passam a ter opinião, a questionar e a perguntar.
Em vez de olhar para o que isso representa em termos de novas abordagens capazes de ajudar o crescimento do colectivo, sempre se optou por tentar fechar esses horizontes, pô-los debaixo do guarda-chuva da necessidade de sobrevivência, em vez de os deixar crescer. Não serem autónomos com a sua arte. Não é por acaso que muitos dos nossos artistas de referência tiveram de se fazer à estrada da emigração, conquistar reconhecimento noutros países, para depois voltarem e ser aceites como figuras do País. Felizmente que hoje já há alguns dirigentes que não pensam dessa forma, mas a classe que acha que os teatros são locais de subversão, que a música deve obedecer a parâmetros de consumo rápido para não deixar rasto, que os escritores devem des envolver a sua obra de acordo com os interesses do Estado e com parâmetros aceites pela maioria, ainda está bem viva.
E é ela que arrasta as igrejas para os olhos dos cidadãos em vez de deixar as salas de espectáculos para os artistas. É ela que continua a achar que a cultura é o passado, que defende que as estratégias para este sector devem ser feitas com ajuda do espelho retrovisor. E diga-se, de forma injusta, utilizam a bandeira da angolanidade e das tradições para limitar a arte dos mais jovens. Ou pelo menos, encaminhá-los para uma direcção que esteja mais de acordo com a manutenção do status quo vigente, onde têm uma posição muito confortável.
Por isso, fico satisfeito quando o ministro do sector acha, tal como eu, que a cultura pode ser muito importante para a diversificação da economia. Que temos de olhar para esta actividade com uma perspectiva de geração de riqueza, e não aquela visão antiga do subsídio para manter a dependência dos artistas agarrada a uma trela que limita o seu crescimento. Precisamos de empresários de cultura que possam trabalhar livremente e ganhar dinheiro, sem que isso faça comichão ao poder.
O Governo deve criar condições, leia-se infraestruturas, legislação, instituições de apoio, para que a arte nas suas diversas vertentes se possa desenvolver de forma livre e independente. Com esta perspectiva, além de ser um enorme elevador social que tira muitas famílias da pobreza, as indústrias criativas podem ser uma fonte de receita importante para o País, em impostos, e um contributo fundamental para a melhoria da imagem internacional de Angola, que por arrasto traz mais negócios e mais investidores para outros sectores.
A cultura, tal como o desporto, devia ter um tratamento equiparado a outros sectores que se consideram como estratégicos para a diversificação económica do País. Não podem continuar a ser tratados com um encolher de ombros, a estar nos últimos parâmetros do OGE e fazer parte da classe "Outros". Caríssimos, na situação em que vivemos e com as condições actuais, podem ser fundamentais para a melhoria da vida de todos. Acreditem...














