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Opinião

O País no futuro: cenários e perspectivas

VISTO DO CEIC

A abordagem sobre a evolução futura de qualquer fenómeno implica a adopção de uma diversidade de instrumentos de análise, em que a extrapolação quantitativa de tendências se destaca como uma das principais técnicas de previsão.

Numa perspectiva de mais longo prazo, os estudiosos das várias áreas das ciências sociais recorrem às técnicas de construção de cenários, através da adopção de um conjunto de premissas que permitem explorar potenciais futuros (ou futuros prováveis) e idealizar novos caminhos. No campo da economia, um rigoroso exercício de análise do desempenho económico de um país deve resultar do conhecimento, habilidade e aplicação simultânea de quatro ferramentas: história, estatísticas, teoria económica e técnicas de previsão.

A história ajuda-nos a avaliar a evolução das transformações estruturais do tecido económico e empresarial ao longo do tempo, resultante das decisões e dos instrumentos de política económica postas em acção; As estatísticas - enquanto instrumento de diagnóstico - fornecem dados sobre o comportamento dos agregados e variáveis macroeconómicas, assim como o nível em que elas foram impactados em função das medidas adoptadas no passado, o que permite igualmente aferir o nível de eficiência e do sucesso dos programas económicos implementados durante um determinado período.

Por outro lado, a teoria económica tem a função de fornecer instrumentos de análise para a interpretação da realidade e ajuda-nos a formular perguntas que desejamos ver respondidas pelos factos. Finalmente, a componente relacionada com a análise previsional ajuda a projectar a evolução futura das variáveis económicas, caso sejam acionadas determinadas medidas de política económica e tendo em consideração determinados pressupostos teóricos subjacentes ao modelo económico adoptado.

A abordagem acima permite-nos facilmente concluir que qualquer exercício de análise prospectivo deve necessariamente implicar uma avaliação retrospectiva sobre as decisões e as medidas de políticas económicas tomadas no passado, o nível de realização dos objectivos e metas e a identificação de eventuais factores de estrangulamento que estiveram na base do fracasso de sucessivos programas de governação. Há acessivelmente 10 anos, o governo angolano introduziu na sua agenda de política económica a necessidade de diversificação económica.

Como é sabido - tendo em conta a composição actual da economia angolana - a diversificação deve passar pela introdução de medidas capazes de propiciar transformações estruturais, o que se consubstancia na diminuição progressiva do peso do sector petrolífero e a diversificação das exportações. Numa breve incursão sobre a evolução histórica de alguns indicadores pode-se constatar que o País registou de 2016 a 2020 uma recessão acumulada de -10,6%. Até 2020 o VAB petrolífero equivalia a 32% do VAB global. A série estatística de 2012-2022, relativa aos indicadores externos, mostra que as exportações petrolíferas corresponderam em média a 96% das exportações totais e a dívida externa bruta equivalia em 2021 a cerca de 110% do valor total das exportações!

No mesmo período, as importações de bens de consumo corrente corresponderam em média a 61% do total das importações. Os indicadores acima descritos evidenciam o elevado grau de extraversão e vulnerabilidade externa em que a economia angolana está exposta, e os desafios delas inerentes para a necessidade de execução de medidas de política económica de relançamento da produção interna, com vista à diminuição das importações e ao aumento das exportações não petrolíferas.

Os instrumentos de orientação de gestão macroeconómica dos países - numa lógica de intervenção parcial - são conhecidos como programas económicos, integrados nos planos de desenvolvimento de médio ou longo prazo, os quais incorporam políticas, projectos, objectivos e metas. De 2012 a 2022, foi prevista (e executada?) uma grande diversidade de programas e projectos estruturantes ligados ao sector produtivo e áreas conexas (com destaque para o Angola Investe, PRODESI, só para citar) integrados nos planos de desenvolvimento nacional 2013- -2017 e 2018-2022. Entretanto, pouco se sabe sobre o nível de execução, os resultados alcançados e os impactos gerados como consequência da sua implementação. Ora, perante este cenário - tendo em consideração as estatísticas acima referenciadas - é legitimo indagarmo-nos: que Angola teremos nos próximos 5 a 10 anos?

Legitimo será, igualmente, perguntarmos o que estará a ser feito hoje que nos permita vislumbrar uma evolução positiva dos indicadores económicos, seja em termos da melhoria de eficiência, produtividade e competitividade externa, assim como em termos de criação de condições para um crescimento económico sustentável, equilibrado e inclusivo, capaz de propiciar condições para a estabilidade dos preços, promoção da empregabilidade e melhoria dos indicadores sociais - tais como pobreza extrema, melhoria dos serviços de saúde e a qualidade da educação?

Qualquer abordagem sobre a evolução futura da economia angolana remete-nos a um exercício de construção de cenários, cujo ponto de partida é o presente. Entretanto, é importante realçar que uma situação económica presente está intrinsecamente ligada ao contexto histórico que o criou, assim como a evolução futura da economia dependerá do que estará a ser feito hoje, dentro do princípio de que o crescimento e o desenvolvimento económico são um processo cumulativo.

Um governo, em termos de política económica, não deve limitar-se ao simples enunciado de grandes objectivos. Deve ser consequente, no sentido de converter os objectivos em acções concretas para influenciar a trajectória das variáveis predominantemente económicas de maneira a transformar os fins em resultados. Para isso acontecer, é preciso que haja liderança. Todas as grandes mudanças exigem uma visão mobilizadora do futuro. Os países, as empresas e a sociedade precisam de uma liderança com capacidade de projectar uma visão de futuro que sirva de referência e inspiração para as mudanças desejadas. Pensar e comunicar uma visão do futuro é parte indissociável do exercício da liderança e da mobilização da sociedade para o desenvolvimento de um país. Sem isso, não haverá futuro.