"A vida é demasiado curta para se moldar ao medo ou ao tabu"
Após afastar-se do teatro cerca de um ano, por razões ligadas a desgaste físico, emocional e pressões económicas, a actriz, produtora e profissional de comunicação, diz ter encontrado força para continuar nas palavras de jovens artistas que a vêem como fonte de inspiração e de colegas mais experientes que a fizeram perceber o impacto do seu trabalho.
Há dois anos disse adeus ao teatro, mas em 2025 regressou aos palcos com a peça "Hotel Komarca Ala Feminina" e, agora, volta novamente com a 5ª edição da peça "Monólogos da vagina". O que a fez regressar?
O meu afastamento do teatro aconteceu há cerca de um ano, durante a produção da peça Ho tel Komarka Ala Feminina. Naquele período senti que precisava parar porque enfrentava um grande desgaste, tanto físico como emocional, além das pressões constantes de trabalhar numa área tão complexa como o teatro em Angola, onde a falta de apoio e patrocínios torna tudo ainda mais desafiante. Na altura cheguei mesmo a pensar em encerrar esse ciclo da minha vida artística, mas muitos jovens artistas procuraram-me e disseram que viam em mim uma referência para continuar a fazer arte. Também recebi palavras de incentivo de colegas e de artistas mais experientes, que me lembraram do impacto do meu trabalho e ajudaram-me a reencontrar o meu propósito - o quanto amo o teatro. Hoje volto aos palcos com mais maturidade, força e com a certeza de que ainda há muitas histórias que precisam ser contadas.
Por que escolheu levar aos palcos a peça "Os monólogos da vagina"?
É apenas uma peça que simboliza a nossa história, enquanto mulheres que cumprem um papel social imenso na reafirmação de questões urgentes e universais como: desafiar tabus, promover o diálogo sobre sexualidade feminina, direitos das mulheres e empoderamento. O teatro tem o poder de despertar consciências, mudar percepções e provocar reflexões, e esta peça cumpre exactamente esse papel. Levá-la ao palco, novamente, tem um grande significado porque é através dela também que a "Buco"s Produções" ganhou identidade e reconhecimento.
Este é um tema oportuno para o mês de Março ou é um tema importante para todos os meses do ano?
Tradicionalmente o tema é destacado no mês de Março, mas falar sobre os direitos e desafios das mulheres é essencial durante todo o ano porque toda mulher, em qualquer época, merece espaço para ser ouvida, compreendida e representada e, a sociedade beneficia-se ao abrir um diálogo sobre essas questões. Entretanto, o teatro é um movimento contínuo de consciencialização que permite reflectir sobre violência doméstica, sexualidade, igualdade de género, educação sexual, entre outros temas.
Qual é o público majoritário que assiste à peça: mulheres ou homens?
A peça é aberta em ambos os sexos, ou seja, para todos os maiores de 16 anos, porque compreender a experiência feminina não é só responsabilidade exclusiva de mulheres, mas dos homens também. No entanto, os dados estatísticos apontam que 84,6% do público é feminino, enquanto 15,4% corresponde aos homens.
Os homens sentem-se constrangidos ou percebem a peça?
Nunca tivemos uma exibição em que homens saíssem constrangidos. Logo, a peça desperta cu riosidade e reflexão , muitos entendem que o conteúdo é educativo e conectado às suas experiências. Começam a compreender melhor o papel da mulher, as complexidades do corpo femini no e a importância de se falar abertamente sobre sexualidade, respeito e igualdade.
Diante das dificuldades de produção e a ausência de condições estruturais para o desenvolvimento artístico, como consegue produzir um evento desta magnitude? Quais os principais desafios?
Não sei fazer menos do que o melhor. Para mim, arte é compromisso e excelência, o nosso público merece qualidade e o teatro exige dedicação total. Produzir teatro em Angola é um desafio constante, mas Deus tem-me dado a estratégia, e nesta edição, tivemos o apoio de empresas que acreditam no nosso trabalho há anos, como Tistech Angola, Rainha dos Afros, Chindeca Acessórios e Correio da Kianda. No entanto, acredito não só no talento, como também é preciso manter disciplina, abdicar de confortos e fazer sacrifícios para que o espetáculo aconteça. O maior desafio é o patrocínio, sempre foi e continua a ser. Por isso, reforço sempre que o artista deve estudar ou formar-se, deve ter outras aptidões para conseguir viver. E do seu rendimento, obtido noutras áreas, poderá investir na arte que ama, pois, não é aconselhável vivermos sempre no aperto porque isso cria instabilidade emocional, financeira e outras questões à volta disso. Por outro lado, está também a disponibilidade de salas de teatro, que muitas vezes não comportam as exigências técnicas ou o tamanho da produção.
Quanto custa, em termos financeiros, produzir uma peça destas?
A produção da peça envolveu um investimento mínimo de 25.000.000 de kwanzas para a cobertura de todas as despesas.















