"A música sempre foi uma forma de escape, existe uma história por trás de cada um de nós"
Sub-inspector da Policia de Trânsito, Pascoal Mussungo, tem também uma vida artística, que assume com nome de Befo N´sungo, onde desenvolve projectos musicais e literários. Prepara a sua reforma para se dedicar exclusivamente ao mundo artístico e tem um projecto novo, Nambuabukuzau.
Como se tornou em Befo N"sungo? É o meu apelido artístico. Sou o Pascoal Mussungo para muitos, PJ para outros. Musical e culturalmente apresento-me como Befo N"sungo, que vem de Befo que significa "nós" no dialecto Ibinda, e N"sungo é o diminutivo do meu apelido, Mussungo. O Befo apela para a questão da colectividade, união entre os grupos étnicos com o objectivo de romper fronteiras. Sou um músico, compositor e escritor, além de outras actividades como ser servidor público, o que me põe em contacto directo com o público. Musicalmente, o que já fez? Em 2014 lancei o meu primeiro álbum, na altura, o nome era mesmo Pascoal Mussungo. Actualmente, estou num novo projecto chamado Nambuabukuzau com o nome Befo N"sungo. O projecto Nambuabukuzau é uma homenagem às minhas origens (Nambuangongo- terra do meu pai e Buco-zau a da minha mãe). É um projecto que traz a desconstrução da narrativa dos conflitos étnicos, a diversidade cultural, a valorização da natureza africana, sobretudo, uma África que dialoga com o mundo. Sou africano nascido num ambiente urbano e aprendo muito com outras culturas, é isso que trago nas minhas canções, porque faço misturas de línguas ocidentais (inglês, francês e português) e das línguas africanas, não só angolanas (lingala e suaíli). Quantas músicas tem o projecto? São seis músicas que estão disponíveis nas plataformas digitais e pretendo lançar em CD, porque recebo pedidos como "sou da velha guarda e não uso essas plataformas", ou seja, algumas pessoas ainda não estão familiarizadas com o Spotify e o YouTube. A minha intenção é promovê-lo ao máximo e levar a minha musicalidade ao mundo, já que este é um sonho que tenho há muito tempo. No entanto, penso que vou me reformar um pouco antes, se não for pela idade, será para me dedicar exclusivamente à música. Houve essa necessidade de separar a identidade do agente regulador de trânsito e a artística? Sim. Porque, há um cidadão de nome Pascoal Mussungo, que é sub-inspector do Departamento de Condutores, que se orgulha muito do seu trabalho e contributo para a nação. Mas desde muito jovem, percebi que minha sensibilidade artística ajuda no meu trabalho como policial. De que forma? Hoje, felizmente, a corporação tem muitas pessoas como eu, que além da farda possuem outras qualidades que ajudam a desconstruir a ideia de que aqueles que estão na polícia são insensíveis, não têm formação cultural, académica, etc. É um problema associar as duas coisas?
Não, nunca foi um problema, porque estou disposto a fazê-las publicamente, assim como as faço inter namente. Realizo diversas actividades no ambiente corporativo, e após várias solicitações surgiu esse novo projecto, e tenho recebido vários telefonemas de pessoas que assistem ao vídeo, no YouTube, a parabenizarem-me. Existem várias histórias por contar, e a partir desse pressuposto, era importante que, sob a aparência de um artista, eu assumisse outra identidade e denominação. Por vezes tenho alguma dificuldade em jogar os dois papéis, mas sempre que tiver a liberdade de cantar e tocar sem estar fardado, apresentar-me à civil é a primeira opção. Como lida com a sensibilidade artística quando está fardado? Sou muito grato por fazer parte do mundo castrense porque nos proporciona uma certa disciplina e rigidez, obriga-me a rever tudo o que faço. Mas a sensibilidade artística também a torna mais flexível porque as pessoas olham para mim e questionam-se se realmente sou policial. No entanto, essa fusão da rigidez castrense com a sensibilidade artística acaba por gerar em mim esse carácter híbrido. Ser artista o aproxima mais da ideia de ser cidadão "comum" do que ser policial? Sim, com certeza, a música para mim sempre foi uma forma de escape, porque existe uma história por trás de cada um de nós. Dentro de cinco ou mais anos, já não estará na Polícia? Sim, porque é hora de dar espaço aos jovens. Estou na corporação desde 2004, acredito que já fiz o essencial, embora seja uma daquelas coisas que ficam connosco, quando chega a hora de sair. Já servi como agente de Trânsito e Segurança, mas culturalmente quero dedicar- -me à música, à escrita, ao diálogo, quero construir um espaço que aborda sobre arte. Sinto que tenho a responsabilidade de contribuir para a nossa cultura, porque há uma voz em mim que diz "tu deves parar de questionar e contribuir". Cada um de nós tem uma misão no mundo, Deus não nos criou para sermos homens falhados.















