Novas metodologias
Esta sucessão de alterações nas metodologias de cálculo cria alguma desconfiança nos operadores de mercado e nas instâncias internacionais. Dirão alguns que tinham mesmo de ser feitas, mas objectivamente deveriam ser feitas todas ao mesmo tempo para suportar a ideia de que a mudança era mesmo necessária
As novas metodologias do INE no cálculo das variáveis macroeconómicas são as grandes responsáveis pelo crescimento social e económico do País no último ano. Conseguiram fazer crescer o PIB em 4,1% no I trimestre do ano passado, aumentaram exponencialmente o índice industrial e, agora, "retiraram" 3 milhões de cidadãos do desemprego, baixando a taxa de desemprego para cerca de 20%.
Nesta tentativa de tornar a cloud mais cor de rosa, e porque os números não encolhem, destapam-se outras zonas mais cinzentas. Por exemplo, afinal só existem 1,9 milhões de empregos formais, uma queda de 1,3 milhões face ao trimestre anterior, e cerca de 50% da população em idade activa, com mais de 15 anos, estamos a falar de mais de 11 milhões de cidadãos, não trabalham, não estão desempregados e não procuram emprego. Estão parados ou a estudar, presume-se. Também não entram nos valores da informalidade, pelo que é difícil perceber como é que sobrevivem. Mas isso o INE não explica, embora confirme que existem.
Esta estratégia da "nova metodologia", que vai cumprindo os objectivos do governo por via da "manipulação" dos números, também "impede" a comparação com os dados anteriores, o que convenhamos, nesta altura também é simpático, uma vez que não se podem tirar conclusões objectivas sobre a evolução dos principais dados macroeconómicos. E isso beneficia sempre numa situação em que os objectivos traçados não foram alcançados, porque não há como avaliá-los de uma forma objectiva.
Existe, no entanto, um factor que não pode deixar de ser referido. Esta sucessão de alterações nas metodologias de cálculo cria alguma desconfiança nos operadores de mercado e nas instâncias internacionais. Dirão alguns que tinham mesmo de ser feitas, mas objectivamente deveriam ser feitas todas ao mesmo tempo para suportar a ideia de que a mudança era mesmo necessária. Este processo a conta-gotas, aproveitando depois o espectáculo que a comunicação social pública faz a cada nova "revelação", tem efeitos colaterais que não são propriamente positivos.
Depois existe o verdadeiro escrutínio, o da população. Está a viver melhor? Sente o crescimento económico? Percebeu que existem menos desempregados? E aqui, parece-me, que a resposta é evidente. Os números podem até ser os mais correctos, mas têm de ser percebidos pelas pessoas, pelos operadores, pela sociedade. E isso obriga a uma comunicação clara, transparente e geradora de confiança. Que me parece que não existe. Podemos estar felizes que a taxa de desemprego afinal é apenas de 20%, mas temos de estar muito preocupados porque só existem 1,9 milhões de empregos formais. Assim não será possível desenvolver o País.













