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"As artes ainda não fazem parte das prioridades dos decisores"

ELAINE ESTHER CAIOMBO

É reconhecida como a sogra, personagem de "Minha sogra, minha rival", uma peça da sua autoria, apresentada pelo Fortaleza Teatro e Tia Caty, da peça "Marido da tia", escrita por Elias Nunda "Ito", do Diassonama. Com mais de 25 anos a respirar arte, intercalando entre palcos, câmaras e bastidores, Elaine Ester Caiombo apresentou o Festival de Cultura e Artes, sob a chancela da sua nova marca: a Morlove

O que é o CUKX?

CUKX é a abreviação de Cilika Ukongwe Ku Xikola, que significa Festa das Artes nas Escolas, na minha língua materna, o luvale. O projecto surge para elevar a cultura, reeducar a sociedade na busca de valores morais e cívicos, ensinar os estudantes, de forma lúdica, e despertar o seu interesse sobre a cultura nacional.

De volta aos holofotes e com um novo produto. Que balanço faz destas iniciativas?

É extremamente positivo. Apesar dos poucos recursos, a Morlove conseguiu ultrapassar as expectativas com uma qualidade acima da média. Pela descrença de muitos, perguntaram-nos se era a segunda ou a terceira edição, devido à qualidade de produção e ao produto final apresentado, quando é a primeira de muitas que estão por vir.

Refere-se a uma nova organização. O que é feito do grupo Fortaleza?

Tentámos fazer a legalização do Fortaleza como produtora, mas, devido à burocracia do processo, foi-nos mais fácil criar uma nova empresa. Daí nasce a Morlove - Eventos Mágicos. Porém, o Fortaleza D"Artes mantém-se activo.

Quem são os donos e o que trazem de diferente?

É uma sociedade com uma quota de 50% de José dos Santos. A outra metade é minha. A produtora tem como objecto social a produção, o empreendedorismo, a gastronomia e a arte. Diferimo-nos de todos os existentes com a apresentação deste primeiro festival, o CUKX, enquanto as outras produtoras estão viradas para eventos de outra natureza.

Tem referido a dificuldade de aceder a recursos. A que recursos se refere?

Entre outros, falo de recursos financeiros. Batemos a várias portas sem êxito. Algumas vieram com falsas esperanças, mas a arte corre-nos nas veias, está no nosso ADN, não desistimos. Cada porta que se fechava era como combustível para nós. Graças a Deus, o Palácio de Ferro "fundiu-se" no nosso projecto e embarcou nessa viagem às nossas origens, identidade cultural, valorização das nossas línguas e, principalmente, ao resgate dos valores morais e cívicos. Mas prefiro realçar os apoios, pois sabíamos que nunca seria fácil e conseguimos congregar fazedores de arte, como o director João Vigário, Onart, o Sr. Carlos de Carvalho, NGI, FotoArt, Hochi-Fu e os seus soldiers Cleyton M, Jakilsa, Dr. Smith, Adonnys, familiares e amigos (seria impossível citar todos) e assim nasceu o CUKX. Pelo que agradeço a todos.

Em quanto ficou orçado?

Se formos a quantificar em números, é avultado, mas temos de ter em conta que um Cleyton M, que actualmente é o músico da nova geração mais cobiçado, custou-nos a amizade, ou seja, a Power House cedeu-nos sem cobrar. Ainda estamos a fazer o levantamento dos custos para sabermos como vamos organizar a segunda edição.

E o retorno?

Para trabalhar com arte não se pode pensar em lucros financeiros imediatos. Neste evento, o maior retorno foi ver a alegria estampada no rosto de cada criança, nos encarregados, professores, as performances todas recheadas de emoção, verdade, entrega, paixão e acima de tudo a inocência infantil, que num gesto artístico transmitiu cor, luz e vontade de invadir o palco e fazer parte da performance.

O que se segue?

Tornar o festival uma marca anual nas escolas do País. Depois, em Julho, começaremos com a pré-produção de um novo trabalho para o final do ano.

Têm referido a vontade de realizar um festival nacional. Como poderá ser concretizado?

Em cada província criaremos uma equipa que vai avançar com a produção enquanto tiramos a edição de Luanda, depois avançamos para outra. Só não o fizemos por falta de patrocínios, o CUKX foi concebido para o País, para que o mundo todo assista.

E sobre o novo trabalho, o que pode desvendar?

Preferia não adiantar muito sobre a concepção em si, mas posso dizer ao Expansão, em primeira mão, que é em alusão ao centenário de Agostinho Neto. Um espectáculo teatral com alguns dos primeiros licenciados em artes cénicas, com o título "O Imortal".

E qual é a sinopse?

Nada mais posso adiantar, terá um pouco de vida e obra. Contudo, em Agosto, abriremos uma turma de formação para Teatro, TV e Cinema. Estamos a trabalhar com vários jovens formados na área e queremos contribuir para o desenvolvimento da nossa cultura. É o nosso core business.

Como artista, que avaliação faz da arte nacional?

Falando apenas de teatro, cinema e televisão, já podemos dizer que está a crescer, não nos níveis desejados, mas acontece muitas manifestações artísticas, estando neste momento no seu melhor e isso acontece porque os fazedores reinventaram-se e estão a saber explorar as novas tecnologias. Por isso a arte continua viva!

Já se pode viver do teatro?

As artes cénicas ainda não fazem parte das prioridades dos decisores. Não existem salas adequadas para as exibições teatrais, os grupos têm exibições que se contam pelos dedos, como podemos vai viver do teatro? Urge a necessidade do Executivo olhar pela arte-mãe e permitir que os fazedores vivam o sonho com um sorriso no rosto e não com uma lágrima no canto do olho.

Mas não é o Executivo que qualifica os artistas. A falta de formação não será o reflexo da qualidade de algumas obras?

Mas é sua obrigação fomentar a cultura e proporcionar condições para se conseguir trabalhar. Desta forma, profissionaliza-se as obras com qualidade, que já temos e muitas (basta vermos as premiações que estamos a receber) e as receitas arrecadas pela venda dos bilhetes que o público vai comprar. O que se vê é mesmo falta de vontade política, pois até formandos temos, de nível médio e superior. Para onde vão após concluir a formação?

Teremos eleições em Agosto, qual a sua análise e o que espera do novo Governo?

Com a pandemia a dificultar a execução e conclusão de algumas promessas eleitorais, tentou-se baixar o nível da inflação, melhorar a qualidade dos serviços de saúde e educação. Mas como não sou política, prefiro cingir-me à cultura, onde identifico como ponto negativo a mudança constante de ministros: cinco anos, cinco ministros e a fusão do ministério com outros sectores, que embora possam convergir, têm as suas especificidades. Para quem vencer, que governe de forma inclusiva para congregarmos esforços e desenvolvermos o País.

O que espera para a classe artística?

Muito trabalho e um agradecimento à equipa Morlove: Celma Santos, Wilson Cavela, João Paulo, Manuel da Costa, Osvaldo Tchisseque, Celina Coluna, Isolete Laurindo, Felisbela Filipe, Mário Suendes e ao protocolo artístico.