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Economia

Défice de 1,2 mil milhões USD na banca no acesso a divisas não "belisca" o kwanza

ESPECIALISTAS APONTAM O DEDO A ‘TRAVÃO’ DO BNA

O Kwanza é um doente crónico que só apreciou 5 anos desde 2000, em anos próximos da realização de eleições gerais. Hoje, as receitas de petróleo já não conseguem garantir uma sobrevalorização do kwanza, mas a política da administração Trump tem desvalorizado o dólar. Mas em Angola essa queda não se faz sentir.

Há um défice superior a 1,2 mil milhões USD entre o que os bancos conseguem comprar na plataforma da Bloomberg e aquelas que são as comunicações das suas necessidades, mas o kwanza continua a resistir "administrativamente" à desvalorização. Isto numa fase em que o dólar tem vindo a depreciar há mais de um ano face às principais moedas estrangeiras.

Em termos teóricos, e segundo o Banco Nacional de Angola (BNA) a taxa de câmbio do kwanza face ao dólar é definida com base no regime de câmbio flutuante, resultando de leilões de divisas no mercado interbancário e oferta/procura. Pelo que se a procura por dólares for superior à oferta tendencialmente o kwanza deprecia, e no caso contrário aprecia, como aconteceu em 2022, em que o preço do barril de petróleo chegou a ser vendido acima dos 100 USD, o que permitiu uma entrada substancial de divisas em Angola.

Mas se nesse ano eleitoral o mercado cambial foi inundado de dólares, o que permitiu uma valorização do kwanza, já que havia uma oferta superior à procura, esse cenário já não se verifica hoje, pelo que o expectável seria uma desvalorização. "Nesta altura há um backlog [procura superior à oferta] de 1,2 mil milhões USD na plataforma Bloomberg. Isso só por si deveria fazer derrapar o kwanza", admite ao Expansão um administrador de um dos maiores bancos do País.

Uma outra fonte, adiantou que apesar de o que é comunicado em termos de necessidades rondar hoje os 1,2 mil milhões USD, há poucos meses o valor rondava os 1,8 mil milhões. Um sinal de que a procura por divisas é sempre superior à oferta. "Obviamente que o BNA tem pressionado os bancos para não fazerem propostas acima da taxa de câmbio praticada hoje", admite um outro administrador de um banco.

Esta informação contraria a posição do governador do Banco Nacional de Angola (BNA), Manuel Tiago Dias, que durante a conferência de imprensa do primeiro Comité de Política Monetária (CPM) que decorreu este ano, insistiu em dizer que "não existe uma gestão administrativa da taxa de câmbio", e que o próprio BNA também se tem interrogado sobre o que tem levado os bancos comerciais a introduzirem as mesmas taxas de câmbio na plataforma Bloomberg. "Deve-se perguntar porque é que os bancos comerciais, quando introduzem as suas taxas indicativas na plataforma, praticamente introduzem as mesmas taxas, inclusive as casas decimais", apontou.

E para a banca a resposta é simples: é que ainda há uma procura muito superior à oferta e baixar as suas taxas indicativas na plataforma pode fazer perder o acesso às divisas disponíveis. Aliás, os bancos só não têm feito ofertas superiores para evitarem de entrar naquilo que o BNA considera "oferta especulativa", evitando penalizações. É por isso que nos corredores do sistema financeiro angolano se diz que há uma "mão invisível" do BNA no mercado cambial com o propósito claro de travar a desvalorização da moeda. É com este modus operandis de "constante intervenção do BNA no mercado cambial", segundo um administrador, com que os bancos se têm deparado.

No ano passado, as vendas de divisas aos bancos comerciais cresceram 11% para 12,0 mil milhões USD face aos 10,8 mil milhões USD registados em 2024, o que significa que os bancos compraram mais 1.186,2 milhões USD em 2025. No entanto, o kwanza depreciou 0,3% face ao dólar porque a oferta de divisas foi insuficiente, havendo registos de vários bancos terem estado com atrasos de transferências internacionais de 3 e 4 meses. E tendo em conta esse backlog, essa desvalorização deveria ter sido maior, admite uma das fontes consultadas pelo Expansão.

Assim, enquanto a procura for superior à disponibilidade, dificilmente o kwanza aproveitará a "boleia" da desvalorização do dólar face às principais moedas internacionais. Por outro lado, as taxas de câmbio do kwanza face às outras moedas são ditadas pela relação do kwanza face ao dólar. É por isso que, só no ano passado, o kwanza depreciou 10% face ao euro. Neste caso, trata-se de um crossrate (taxa cruzada) em que a taxa de câmbio entre duas moedas é calculada através de uma terceira moeda (neste caso o dólar), sem envolver directamente a moeda local onde a cotação é publicada.

Por muito que o governador do BNA reitere que o regime cambial em Angola é flexibilizado, todos os indicadores parecem dar razão a especialistas, banca e o próprio FMI, que apontam a um regime cambial com ajustes controlados e graduais na taxa (crawling peg). "Não existe uma lógica de mercado na actual taxa de câmbio, mas sim uma lógica administrativa que, não poucas vezes, é contrária aos mínimos olímpicos do racional económico e financeiro", adverte um administrador de um banco angolano em declarações ao Expansão.

A palavra de ordem parece ser a de segurar a moeda nacional a todo o custo, até porque vêm aí eleições, admitem alguns especialistas. "Preparam-se para fazer o mesmo que fizeram em outras eleições, que é fixar a taxa de câmbio e até valorizar", defende um economista, solicitando anonimato.

O economista e gestor Álvaro Mendonça considera que "os ciclos eleitorais mexem sempre com a economia, normalmente com políticas mais expansionistas e destinadas a agradar" aos eleitores. "Mas acho que neste momento a inflação e a perda de poder de compra dos salários são temas mais quentes que o cambial. As projecções dos organismos internacionais apontam para uma estabilização da cotação do Kwanza. Mas é evidente que numa economia dependente em muitas áreas de importações, uma valorização do kwanza torna as compras ao exterior mais baratas e alivia as pressões inflacionistas"

Leia o artigo integral na edição 861 do Expansão, sexta-feira, dia 30 de Janeiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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