"A cultura pode e vai contribuir para a diversificação económica"
O ministro olha para a realidade em outros países e acredita que em Angola a cultura também pode ser um factor de crescimento económico. Está empenhado em criar condições para que as indústrias criativas sejam um polo gerador de riqueza e de emprego.
A cultura tem de dar dinheiro. Nós olhamos para países como o Brasil ou Nigéria, onde a cultura, além de ser um elevador social, é também uma fonte de riqueza.
Claro. O desafio é levar as pessoas a entenderem até que ponto a cultura é um factor económico. Criei uma agência das indústrias culturais e criativas que têm essa perspectiva económica. Os números no Brasil são impressionantes. O sector cultural brasileiro, com tudo incluído, contribuiu com cerca de 3,5% para o PIB, acima por exemplo, da indústria automóvel. Estamos a falar de um valor que está acima dos 235 mil milhões reais [44 mil milhões USD]. Em 2023 este sector gerou 1,2 milhões de empregos formais. Nos Estados Unidos ainda é muito maior.
Na Nigéria a contribuição para o PIB já é 2,5%. Mas como é que se muda a mentalidade das pessoas para que tenham a consciência de que a cultura pode ser um factor importante de diversificação económica?
Esse é o nosso trabalho e contamos com a vossa ajuda como comunicação social, com o seu papel de divulgação, para que as pessoas sintam e percebam que a cultura é muito mais que do que animação, divertimento. Não, não é só isso! A cultura pode e vai contribuir para a diversificação económica.
É também um factor gerador de empregos.
Claro. Por exemplo, estamos a vir do Dia Nacional da Cultura... o número de pessoas que se empregou naquele espectáculo! Não só artistas ou músicos, mas o indivíduo que carrega os instrumentos, os que instalam e gerem as luzes, os que preparam o palco, os que estão encarregues do catering, etc. Tudo isso é gerador de emprego. Este papel que a cultura hoje exerce no mundo é extremamente importante como factor identitário, mas também como factor patrimonial, como factor de desenvolvimento económico.
É necessário criar um circuito cultural, que nós ainda não temos.
Nós estamos a criar esses circuitos. O nosso maior problema foi não termos equipamentos, termos destruído os equipamentos , entenda-se salas de espectáculos. E as poucas que existiam serviam para tudo menos para a actividade dos artistas. Quando eu entrei aqui no ministério, e se precisasse fazer uma reunião com os artistas, tinha que alugar um hotel, porque não tinha uma sala para reunir com ele
Hoje já tem o Palácio de Ferro a funcionar.
Foi por aí que começámos, lembro-me quando aquilo estava cheio de água, era utilizado para lavar carros. Hoje já há gente a preocupar-se com o Palácio de Ferro e é bom. Mostrámos que tínhamos uma matriz de concessão de gestão que poderia funcionar, e é com ela que temos hoje a funcionar o Palácio de Ferro e o Centro Cultural Manuel Rui no Huambo. Além das salas têm restaurantes, têm capacidade de gerarem recursos, de se auto defenderem do ponto de vista financeiro. É com esta fórmula que queremos criar muitos destes espaços espalhados pelo País. Também já está a funcionar o centro cultural no Namibe.
Isso cria dinamismo na actividade artística.
Nós tínhamos músicos, tínhamos pessoal do teatro, pessoal da dança, que não tinha onde ensaiar, nem onde cantar, nem onde tocar, mas com famílias para sustentar. Esse é um problema que ainda existe até que estes novos equipamentos possam estar a funcionar. O Cine Nacional está quase pronto, já está a começar a ser pintado, a parte das cadeiras já está a ser arranjada, segue-se o concurso público para gestão. Ainda temos agora o Atlântico, o Tivoli e o Cine São Paulo. Claro que precisamos de ganhar verbas para ir começando a mexer as coisas, mas isso tudo é o trabalho da agência. A agência vai conseguir arranjar um fundo, verbas para nós começarmos a dinamizar de novo aquelas salas que já existiam, e outras novas que vão ser feitas.
Já temos uma classe empresarial para a cultura?
Com as boas práticas destes exemplos que falámos, há cada vez mais gente a acreditar que pela cultura também se pode fazer dinheiro, ter projectos empresariais sólidos. De facto, temos de pensar de outra forma. Nós falamos dos dados do Brasil e da Nigéria, mas se me perguntarem a mim quanto é que a cultura contribui para o PIB do País, não sei. Não há dados.
Durante muitos anos nem aparecia nas rubricas do OGE...
Esse é o problema. Agora, aparece no Comércio. Misturado com os dados do comércio...
O que não faz sentido.
Claro. Convém destacar que é com estes dados e com este tipo de informação que se pode mobilizar as pessoas e que podemos ter a consciência do papel que a cultura pode ter dentro da economia.
Sente que os seus colegas de Governo já olham para a cultura assim dessa forma? Ou seja, de ser uma coisa autónoma e não um item da rubrica "Outros"?
Bom...essa é uma pergunta que eu não quero responder, por uma questão de ética ministerial, e porque também não lhes perguntei. Mas penso que, à medida que hoje discutimos as questões de cultura dentro do Conselho de Ministros, se não havia, necessariamente começa a aparecer uma maior sensibilidade para esta visão. Se não houvesse, certamente que não seriam disponibilizadas verbas para os projectos que já estão a avançar.
Em termos práticos, ainda não tem noção de quanto vale esta actividade?
Não. Por isso é que eu necessito que se produzam dados sobre o impacto das indústrias criativas na economia para saber como é que vamos crescendo.











