A imprevisibilidade cambial aborta e desacelera gradualmente o crescimento das empresas
Emerson Paim, CEO de uma das starups mais antigas do ecossistema nacional, aborda o empreendedorismo em Angola, numa conjuntura marcada pela imprevisibilidade cambial, pelo acesso ao crédito e pela informalidade que se mantém viva.
Tem uma wallet integrada à aplicação, um serviço de transporte de passageiros e de mercadorias e também um e-commerce. Se tivesse de fazer um pitch a financiadores, como apresentaria a empresa?
Começaria por dizer que somos um super app. Apesar de termos hoje menos visibilidade, continuamos a ser uma marca forte. Desenvolvemos a aplicação em várias fases de adaptação ao mercado, apesar de uma concorrência forte e de muito capital estrangeiro a entrar em Angola no segmento. Essa concorrência procurou dominar o mercado mediante uma guerra de preços. A falta de regulamentação dificulta gerir esta concorrência. No entanto, temos resiliência, capacidade de adaptação e uma estrutura coesa que nos ajuda a continuar a desenvolver projectos e condições de mercado para a marca. Muito recentemente, e em primeira mão, podemos dizer que já temos em Angola um ecossistema eléctrico: motos, postos de carregamento com sistemas de super carregas, baterias e outros serviços, que ainda não está disponível comercialmente, mas já se encontra em fase de testes. Estamos a criar as condições para o seu lançamento. Portanto, é uma aplicação com resiliência e condições para se desenvolver num mercado muito difícil e complexo.
Entre as 4 frentes, qual tem maior relevância na Kubinga?
Continua a ser o transporte de pessoas. Contudo, fizemos um ajuste, direccionando-nos mais para o mercado B2B [Business To Business]. Temos agora um sistema que apoia várias empresas, com uma lógica de independência dos colaboradores ao usarem a aplicação por meio de uma carteira corporativa. Temos crescido com alguma resiliência nesta área, que continua a ser a mais forte. Com a estrutura do ecossistema de motos eléctricas em fase de lançamento, acreditamos que temos uma quota de mercado forte que nos vai ajudar a alavancar e a aumentar consideravelmente o volume de entregas para o ramo corporativo, assim como o serviço de moto-táxi para transporte individual de pessoas em corridas mais rápidas.
Vocês inauguraram praticamente o mercado dos transportes por aplicativo em Angola, juntamente com a T"leva. Mas já há muito tempo que desistiram dos carros e apostaram mais fortemente em motorizadas. Esta leitura é correcta?
Eu diria que não. Não houve uma desistência. Fizemos um abrandamento no desenvolvimento do mercado para clientes finais (B2C) e passámos a focar-nos no negócio para negócio (B2B).
Porquê?
Por uma análise factual. Se uma empresa entra no mercado com uma moeda forte e está disposta a gastar capital para ganhar quota de mercado, simplesmente investe. A título de exemplo: em 2018, com um milhão de dólares (quando o dólar valia mais ou menos 200 Kz), esse investimento teria um determinado poder. Se o plano de gastos fosse para 2 ou 3 anos, no ano 4, esse dólar já valeria 600 Kz. Ou seja, gasta-se menos dólares do que o inicialmente previsto e aumenta-se a capilaridade, porque se tem uma moeda forte na gestão.
Os aplicativos que vieram com capital estrangeiro praticamente assaltaram o mercado?
Diria que aproveitaram uma brecha de mercado que, provavelmente, também não contavam que fosse acontecer dessa maneira. Ninguém, em 2018, previa que o câmbio fosse chegar perto de 1.200 ou 1.300 Kz, como está hoje. Muito provavelmente, encontraram oportunidades financeiras para se manterem robustos, porque com esta engenharia financeira conseguem oferecer mais bónus, mais vantagens, mais oportunidades. Assim, é mais fácil atrair utilizadores num mercado que está cada vez mais enfraquecido. As famílias estão financeiramente mais fracas e não há cálculo mais simples do que gastar menos.
Por que não recorreram à banca para tentar equilibrar a situação?
Inicialmente, tivemos oportunidades de ir à banca, mas hesitámos. Quando tentámos fazê-lo novamente, já foi um pouco mais tarde. Tivemos até, surpreendentemente, muita oferta no princípio. Provavelmente, se tivéssemos aderido, teria sido um crescimento mais lento e com mais responsabilidade. Mas também éramos uma empresa muito pequena, com uma estrutura reduzida, o que causou alguma hesitação. Provavelmente, ter-nos-ia dado estrutura suficiente para conquistarmos mais quota de mercado.
E como se mantiveram no mercado tendo em vista a fragilidade económica?
Nós auto-regeneramos, com os capitais que recebemos dos dividendos dos negócios que fomos e vamos desenvolvendo. Todo o serviço que vendemos é reinvestido na infraestrutura da empresa.
A startup é mais sensível à conjuntura de mercado do que uma PME, por exemplo, devido ao seu elevado risco e à infraestrutura de base.
Sim, sem dúvida. Talvez seja primeiro definir o conceito de startup. É uma empresa com base tecnológica, com capacidade de desenvolvimento de mercado, escalável a um nível ilimitado, que usa a tecnologia como função do serviço ou do produto que traz para o mercado. Esta tecnologia é depois complementada com o serviço que, no fundo, acontece localmente. Se olharmos para isso de forma mais abrangente, completa-se com outras funções do mercado: com a disponibilidade de crédito, com sistemas de pagamento, com sistemas de cartão de crédito ou débito directo. Todo esse processo tecnológico acaba por ser uma debilidade no nosso mercado nacional.
Como?
Ou seja, nós aqui temos de montar isso do zero. Quando, por exemplo, uma Uber chega à Europa, já encontra um sistema de débito directo em tempo real. O utilizador coloca o cartão na aplicação e, automaticamente, é feita uma pré-autorização para o valor estimado da viagem. Aqui em Angola, nós tivemos de criar o sistema do zero. Portanto, quem não tem acesso a financiamento ou moeda forte está sujeito à susceptibilidade do mercado em relação aos preços.
Mas o mercado também virou uma febre de investimento.
Lembro-me de discutir que, com a entrada dos novos players, se ia criar uma inflação não propositada no preço dos carros de menor custo. E foi o que aconteceu. Na altura, os carros como o Hyundai i10 ou Grand i10, estavam entre 3,5 e 3,7 milhões Kz. Após estarmos no mercado, com muitos carros a entrarem e muita gente a adquiri-los, os preços subiram. Em menos de um ano, um carro custava perto de 7 milhões Kz. Claro que este aumento não foi forçado apenas pelo número de aplicações, mas também pela desvalorização do Kwanza face à moeda estrangeira, uma vez que não fabricamos carros em Angola. Mesmo que fabricássemos, teríamos de importar muito material. Esta é a complexidade do mercado financeiro, que pouco apoia o desenvolvimento de qualquer aplicação no ecossistema das startups.
(Leia o artigo integral na edição 862 do Expansão, sexta-feira, dia 06 de Fevereiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)











