"As empresas públicas não estão alinhadas com as boas práticas que existem no resto do mundo"
A prestação de contas no sector empresarial público ainda é um problema crónico, onde a nomeação por confiança política se sobrepõe à capacidade de gestão e o espaço para opinião técnica quase não existe. Não falta lei que obrigue; falta exigir e penalizar a má gestão.
Vão fazer agora 16 anos em Angola. Durante esse percurso, quais foram ou quais têm sido os maiores desafios da Forvis Mazars local?
Temos de dividir isto em algumas etapas. A Mazars, de facto, não está há 16 anos em Angola; está há mais. A Mazars Portugal começou a trabalhar em Angola em 1995, quando veio com a equipa de Portugal para acompanhar os clientes portugueses. De 1995 a 2009 esteve a trabalhar essencialmente com clientes portugueses. A maioria dos clientes era portuguesa e estava aqui a realizar trabalhos. Nessa altura, a equipa também era portuguesa. Em 2009, alguns clientes com algum peso começaram a dizer que não iriam continuar a suportar os custos logísticos. Queriam que fosse aberta uma empresa em Angola para continuar a prestar o serviço. Podíamos continuar a prestar o serviço a partir de fora ou ter a empresa em Angola. Então, em 2010, abriu-se a empresa em Angola e um sócio da Mazars ficou associado à empresa local.
E depois de 2010?
Durante alguns anos, de 2010 até 2017/2018, havia um misto de equipas angolanas e equipas que vinham através de um pro tocolo existente em França cha mado VIE (Voluntariado Inter nacional em Empresas). São pessoas formadas em França que podem ser contratadas por empresas no estrangeiro através de um programa do Estado francês. Nessa altura, trabalhou-se muito com essas pessoas aqui em Angola e ainda com recursos de Portugal. A partir de 2020, optámos por manter uma matriz local. Hoje somos praticamente 100% angolanos. Continuamos a dizer às entidades a quem apresentamos propostas que a nossa estrutura é local e assegurada por profissionais do país.
Em nenhum caso contam com recursos estrangeiros do grupo?
Há situações em que, para alguns trabalhos que ainda não fazemos de forma regular, recorremos ao apoio do grupo. Por exemplo, se um cliente da área financeira de um banco quiser um trabalho muito específico que nunca fizemos, não faz sentido ter recursos permanentes para isso sem actividade. Então o que fazemos é recorrer a recursos do grupo, juntá-los às equipes locais, formar as equipas angolanas durante o trabalho e ir criando capacidade local. Usamos, pontualmente, recursos do grupo, quer africanos, quer de Portugal, para garantir a qualidade do trabalho. Mas a grande matriz é angolana.
Mas a Forvis Mazars Angola ainda responde a Portugal?
Não. O nosso sistema é um pouco diferente do das Big Four. As Big Four funcionam numa espécie de franchise. Não é exatamente assim, mas aproxima-se disso. Existe um master, digamos assim, e no caso de Angola normalmente é Portugal, que depois pertence a outra região e assim sucessivamente. O destino das operações é comandado por esses centros.
E como é que vocês funcionam?
A Forvis Mazars funciona numa estrutura integrada. Isso significa que todas as entidades locais fazem parte da mesma estrutura. Os sócios de Angola são também sócios da organização global. Portanto, a decisão aqui é angolana. Quem toma as decisões somos nós, os sócios locais. O que temos de alinhar são as políticas do grupo, as regras do grupo e o uso da marca. Mas as decisões, se vamos para a esquerda ou para a direita, se vamos contratar mais pessoas ou não, são locais. Essa é a grande diferença entre a matriz da Forvis Mazars e a das Big Four.
Falou do contexto histórico do surgimento da empresa e de como actua em Angola, mas ainda não falou dos desafios.
Os desafios foram vários. Primeiro, a necessidade de deixar de trabalhar a partir do exterior, porque os clientes exigiram uma mudança na matriz de custos e não queriam continuar a pagar viagens e hotéis com muita frequência. Numa segunda fase, tivemos de gerir equipas locais juntamente com jovens franceses que vinham através do programa VIE, a quem também demos formação. Hoje, a maioria desses profissionais que trabalham connosco são directores em empresas francesas em Angola. Infelizmente, parte do know-how que transmitimos foi--se perdendo à medida que essas pessoas foram saindo e sendo absorvidas por grandes empresas francesas em Angola.
Isso obrigou a criar esta estrutura completamente local?
Depois, nesta última fase, houve a criação de uma estrutura completamente local. Quando entrei, em 2020, devíamos ser cerca de 8 ou 10 técnicos. Hoje temos cerca de 35 pessoas. A nossa empresa é praticamente 100% angolana. Todas as pessoas contratadas são angolanas, com excepção do meu sócio. A parte técnica, a parte de suporte e o staff são todos angolanos. Nesta última fase, o grande desafio foi criar uma dinâmica multinacional num ambiente local. Os colaboradores que entram na empresa muitas vezes estão habituados a outra dinâmica de trabalho e não a uma cultura forte de qualidade e compliance. Nós temos exactamente as mesmas obrigações de compliance & governance que qualquer empresa do grupo no mundo - em França, em Portugal ou nos Estados Unidos. Criar uma cultura própria da empresa num ambiente diferente é um desafio permanente. É algo que temos de fazer todos os dias: formar pessoas, repetir processos e criar mecanismos que mitiguem desvios de comportamento.










