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Grande Entrevista

"A OPEP foi utilizada como bode expiatório para justificar o insucesso das políticas sectoriais"

PATRÍCIO QUINGONGO CEO DA PETROANGOLA

O especialista defende que o sector está a ser mal gerido há vários anos, que o sector petrolífero nacional está a decrescer em todas as suas componentes, que a dependência das multinacionais é excessiva e o projecto do conteúdo local não arranca. E que se quer passar a ideia que tudo isto é culpa da OPEP.

Comecemos pelo tema do momento. Do seu ponto de vista, Angola fez bem ou fez mal em sair da OPEP?

Fizemos mal. Eu considero a saída de Angola da OPEP um absurdo.

Porquê?

Por diversas razões. Muita gente não sabe, mas Angola é o maior exportador líquido de petróleo do mundo.

Isso quer dizer o quê?

Quer dizer que o rácio entre o que produz e o que exporta é o maior. Angola é o único país do mundo que tem um rácio de exportação superior a 97%, ou seja exportamos mais de 97% do que produzimos, o que é um caso único. E como a OPEP é uma organização que protege os interesses dos países que exportam petróleo, é de todo o interesse de Angola estar nesta organização. Acrescente-se que nós também somos o país mais petrodependente do mundo. São duas realidades de que pouco se fala, mas que são importantes.

Concretize esta ideia da petrodependência.

O governo que mais depende das receitas petrolíferas, em termos percentuais, é o angolano. Precisa mais do dinheiro do petróleo do que o governo saudita, o governo nigeriano ou o governo argelino. E pode-se verificar isso pelo peso do PIB petrolífero nos diversos países. E, como sabemos, como não existe diversificação económica em Angola, mesmo a cair, é o PIB petrolífero que financia todas as outras actividades, vale 95% das exportações e da entrada de divisas. Veja-se que grande parte dos grandes contribuintes são prestadores de serviços da indústria petrolífera. O dinheiro que o Estado paga à contratação pública, também é receita petrolífera.

Voltando à saída da OPEP, os argumentos do Governo apontaram no sentido de a organização não dar a quota que Angola queria, o que podia implicar cortes da nossa produção. Isto corresponde à realidade?

Não, não é assim. Não há nenhuma justificação técnica para a nossa saída. A OPEP não proíbe nenhum país de produzir petróleo. Essa é uma questão que se quer passar para a opinião pública, mas não é assim. Pelo contrário. A OPEP fomenta a produção e a continuação da indústria de petróleo e gás. As quotas são definidas de acordo com a capacidade actual de produção de cada país.

Explique-nos...

Em 2020, por causa da Covid-19, quando a OPEP anunciou os primeiros cortes, utilizou a produção média de 2018 dos diversos membros para definir as quotas. O que era incorrecto. Na altura, nós como analistas, já tínhamos explicado isso. Angola em 2018 estava a produzir um milhão e quatrocentos mil e tal barris/dia, e por isso é que a quota atribuída em 2020 estava muito acima do que produzíamos naquela altura, apenas 1,2 milhões/dia, 200 mil barris acima, que eram inexistentes. O que a OPEP fez agora em 2022 foi reajustar o valor dos países, tendo em atenção a produção actual. Mas, ainda assim, a quota que foi dada a Angola está acima das nossas capacidades actuais de produção.

E está acima da produção que está inscrita no OGE deste ano, pelo que não se entende este argumento.

Na verdade, mesmo que nos mantivéssemos na organização, a nossa produção estaria abaixo da quota e não teríamos necessidade de fazer qualquer corte, como Angola nunca fez desde que pertence à OPEP.

Não havendo este argumento, que outros argumentos poderiam existir para a nossa saída?

Aí é que está a questão. Mas eu não fiquei muito surpreendido com a saída da OPEP, porque Angola já dava sinais. Foi o país que nos últimos três anos teve a pior postura dentro da organização. Abandonou reuniões da OPEP pelo menos duas ou três vezes e isso não aconteceu com outros países. Os membros da OPEP têm desacordos dentro da sua estrutura, mas não a esse nível de abandonar as reuniões.

Foi então um desfecho previsível...

Era previsível, porque Angola nos últimos anos não se soube posicionar na organização e, se olharmos os pronunciamentos oficiais, é que nós tivemos uma "posição contundente" nos últimos quatro anos. E a OPEP não é para irmos discutir, é para encontrar interesses comuns entre os países produtores de petróleo. A posição de Angola foi de ir procurar algum protagonismo numa organização em que nós somos uma formiga no meio de leões.

E que benefícios retirava Angola de estar na OPEP?

Há benefícios de pertencer e não há nenhum benefício não estando. Para um país exportador, como Angola, interessa estar no seio daqueles países que controlam a exportação...

Pelo menos para saber o que se vai passar...

Perceber o que se passa, saber das expectativas e garantir que vai continuar a exportar petróleo. A indústria de petróleo nasce de empresas multinacionais - a Total, a Exxon, a BP, a Chevron, etc. - e o que é que acontecia antes de 1960? Essas empresas ditavam o sector em termos mundiais e os países ficavam com poucos benefícios. A OPEP existe para garantir esse controlo, para dar soberania aos países e não às empresas. Uma possível extinção da OPEP iria voltar a garantir o domínio das empresas nos mercados internacionais e os países ficariam com muito pouco do negócio.

Leia o artigo integral na edição 758 do Expansão, de sexta-feira, dia 12 de Janeiro de 2024, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)