Ébola: Pânico ante o avanço do vírus mais letal
A Organização Mundial de Saúde alertou que o actual surto epidémico de ébola na África Ocidental está entre os "mais assustadores" desde o aparecimento da doença, há 40 anos, dada a dispersão geográfica de casos. As formas mais graves da doença apresentam uma mortalidade de 90% e não existe vacina, cura ou tratamento específico.
O ébola - nome do rio na República Democrática do Congo onde o vírus foi detectado pela primeira vez, em 1976, ainda aquele país se chamava Zaire - nunca antes tinha sido visto na Guiné, como está agora a acontecer. Então, quando as pessoas ficavam doentes com febre, dores musculares, vómitos e diarreia, os agentes de saúde falavam em febre de Lassa ou febre amarela, que são endémicas na região.
Por isso, ninguém conseguiu juntar as peças até final de Março, e o vírus, traiçoeira e livremente, espalhou- se durante meses. Neste momento, os agentes de saúde estão a lutar para conter o surto, que já matou mais de 100 pessoas e afectou pelo menos dois países vizinhos. Debatem-se com a forma mais agressiva do ébola, a estirpe Zaire, que mata 9 pessoas em cada 10. Ao mesmo tempo, os cientistas estão a vasculhar os bosques, e o genoma do vírus em si, à procura de pistas sobre como esta estirpe, conhecida na África Central, acabou por ir para este, e se a sua propagação sugere que as pessoas em áreas florestais em toda África subsaariana estão em risco.
O ébola transmite-se por contacto directo com o sangue, fluidos corporais e tecidos de sujeitos infectados, provocando febres hemorrágicas que geralmente são fatais. Este facto, unido à sua alta mortalidade - que dá aos infectados poucas oportunidades para contagiar outras pessoas - manteve quase todos os surtos abaixo dos 300 casos. E, infelizmente, não existe tratamento nem vacina, cenário que faz do ébola um dos mais mortais e contagiosos vírus para os seres humanos.
Inicialmente, o vírus multiplica- -se nas células do fígado, baço, pulmão e tecido linfático, causando danos significativos e hemorragias. Os primeiros sintomas são febre alta e repentinas dores musculares, dor de cabeça, conjuntivite (inflamação nos olhos) - que neste caso resulta em cegueira -, dor de garganta e fraqueza. Após alguns dias, surgem vómitos e diarreia (acompanhados ou não de sangue), erupções na pele, redução das funções do fígado e dos rins, perturbações cerebrais e alteração de comportamento.
O estágio final da doença é percebido pelas intensas hemorragias internas e externas, que não cessam porque o sangue não coagula. Podem ocorrer sangramentos no nariz, ânus, boca, olhos, e em todos os orifícios da pele. A morte surge entre uma a duas semanas após o início dos sintomas (ou até um mês após a infecção inicial). O vírus destrói o cérebro e a vítima geralmente tem convulsões epilépticas no estágio final da doença.
A epidemia mais letal de ébola da História foi a do Uganda, no ano 2000, que causou 425 casos e 224 mortos, mas a estirpe não era a mesma que grassa agora pela África Ocidental. O surto actual corresponde à estirpe Zaire, a mais mortífera das que existem, e é a quinta em incidência na história desta mutação. A onda mais dura da estirpe Zaire ocorreu em 1976, com 318 casos e 280 mortos. Com ela, a humanidade teve conhecimento da existência desta terrível ameaça.
Desde aí registaram-se epidemias de ébola no Sudão, Zaire (actual República Democrática do Congo), Gabão, Costa do Marfim, Libéria, África do Sul, Uganda e República do Congo. Afectaram um total de 1.848 pessoas, das quais morreram 1.287 (uma mortalidade de 70%). Os surtos mais fortes foram registados na República Democrática do Congo, em 1976 (318 casos), 1995 (315 casos) e 2007 (264 casos); no Sudão, em 1976 (284); e no Uganda, em 2000 (425 casos).
Vírus está a acabar com os gorilas
Os surtos surgem normalmente em aldeias remotas da África Central e Ocidental, próximo de florestas tropicais, de acordo com a OMS. Neste momento, o vírus, que tem cinco estirpes, só existe no continente africano, mas já houve casos nas Filipinas e na China.
Num artigo publicado pela revista The Lancet, um especialista dos Médicos sem Fronteiras explica que uma grande dificuldade nesta epidemia está na coordenação com os três governos implicados (Guiné, Serra Leoa e Libéria). Para além da grave falta de médicos - nem sequer há clínicos suficientes para lidar com doenças comuns -, nenhum dos três sistemas nacionais de saúde está preparado para controlar uma epidemia de ébola. Para travar a expansão do vírus há que seguir a cadeia de transmissão no sentido oposto, explica. Um médico da sua organização caminhou 8 quilómetros através das zonas rurais do Sul para localizar um possível paciente.
Mas o mortal vírus de ébola não afectou só pessoas na África Ocidental em vários surtos alarmantes nos últimos anos. Está a atacar sobretudo os gorilas de planície da República do Congo. Investigadores espanhóis, suecos e alemães confirmaram a enorme mortandade (que alcança mais de 90% na zona estudada, cerca de 5.000 gorilas) atribuída à doença, a qual comprova que se transmite de família em família de forma epidémica e avança em direcção ao sudeste.
No resto da extensa área selvagem habitada por estes animais não se dispõe de dados, mas estima-se que a mortandade tenha acabado nos últimos anos com um quarto dos exemplares. No que respeita aos chimpanzés, há menos dados, mas calcula- se uma mortandade de 83%.
No entanto, a procedência primária do ébola que mata os gorilas continua a ser um mistério. Recentemente, foi identificado um tipo de morcego como reservatório (que transportem o vírus mas não sejam afectadas por ele) e transmissor do vírus, mas não se sabe se há mais espécies que actuem de forma idêntica.
Benjamim Carvalho










