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Opinião

Dinheiro, capim, comida de cabrito

Opinião

Estamos a falar do cabrito humano. Um ruminante político. O cabrito humano come onde está amarrado

A expressão "dinheiro não é capim" é um provérbio da língua portuguesa, um dito popular cuja origem se perde nas brumas do tempo, conservado até hoje nas mentes dos falantes com a sua utilidade social inegável. O capim é um vegetal que nasce espontaneamente na natureza. Praticamente não exige investimento nem esforço do homem para vê-lo crescer ali na berma das picadas do mato. Esse capim tem uma componente alimentar, não só para o gado, desconhecida de muita gente: a clorofila. A clorofila tem imensas propriedades, uma delas anti- -cancerígena, de grande valor para os humanos. É claro que espremer a clorofila do capim requer o recurso a um espremedor, pois nós não nascemos com a pança, o bandulho e o folhoso, os três estômagos que o boi carrega pelo campo fora, no acto de degustar a sua refeição de capim.

Quem diz boi, dirá cabrito, ou ainda o cágado. É concretamente sobre o famoso cabrito, que puxamos a nossa conversa que, digo-o já de passagem, não é para boi dormir. Estamos a falar do cabrito humano. Um ruminante político. O cabrito humano come onde está amarrado. É outro provérbio, de origem africana. Trasladado para um modelo de gestão económico-financeira redunda numa manipulação anti-proverbial com consequências altamente desastrosas para o desenvolvimento de um país recém-independente.

Tenho para mim que o verdadeiro significado do provérbio "o cabrito come onde está amarrado" tem a ver com a organização social e económica das pequenas comunidades rurais. O pau de amarração é, naturalmente, o soba, ou outra autoridade tradicional local. O cabrito é a própria comunidade, no seu todo. Esta, sim, é a verdadeira dimensão axiológica deste provérbio: o povo na sua totalidade come em torno do pau (autoridade) onde está amarrado. Todos comem, na verdade, senão, a comunidade se extingue, visto que os recursos no campo não são nada abundantes.

Muito associado ao provérbio "o dinheiro não é capim" a língua portuguesa criou outro: "o dinheiro não cresce nas árvores". Portanto, aqui em Angola, quando se diz, por conveniência própria e egoística, que "se o cágado subiu no pau é porque alguém o pôs lá", está-se mesmo a querer dizer que o cágado é posto na árvore, com o único objectivo de satisfazer os pecados da gula do próprio e de quem o pôs lá (o processo de comer capim estatal é uma ruminação de amigos)".

Voltando à questio principais, que tem a ver com o dinheiro do Estado angolano, transformado em comida proverbial, diremos, para sequência da conversa, que o provérbio tem a sua razão de ser: o dinheiro do Estado não é capim, isto é, não cresce ao deus-dará, portanto, tem de ser gerido com parcimónia e repartido, pelas leis da Economia, por todos os 30 milhões de cabritos que, por via provérbio genuíno, devem necessariamente estar amarrados ao pau do Governo.

E, como o dinheiro não cresce nas árvores, não há cá que fazer subir cágados nos paus, porque nos paus também as folhas são escassas e servem para dar sombra a todos os cabritos que andam com os pés bem assentes na terra. Ditas as coisas deste outro modo mais racional e afectivo - propriedades que todo o Governo africano, por virtude do imperativo sacrificial do colonialismo secular, devia honrar - concluímos que, se não se proceder, urgentemente, a uma involução do provérbio "o cabrito come onde está amarrado", carreando o seu pragmatismo campesino para a pretendida constitucionalidade económica, não sairemos da cepa torta, em termos de gestão económica do país.

O que se pode verificar a olho é que todo o cabritismo da economia e das finanças angolanas teve a sua génese na excessiva partidarização milimétrica da vida nacional, principalmente na esfera da produção da riqueza, e da componente do trabalho a ela associada. Foi o monolitismo partidário, a exigência da prova da militância para ser-se cidadão, para se poder trabalhar num país onde quase todos as possibilidades empregatícias têm cor partidária, que desencadeou, naturalmente, o fenómeno do cabritismo.

Portanto, o cabritismo não vacilará, enquanto não se despartidarizar a economia angolana. Este colete de forças partidário é incompatível com a economia de mercado. Até lá, o dinheiro do Estado angolano continuará a ser capim ruminante para uma elite de cabritos. A menos que se amarrem todos os cabritos angolanos (os 30 milhões de cidadãos) ao pau do Governo. Isso impõe que se planifique quantas escolas, chafarizes, postos de saúde, estradas terciárias nos musseques e iluminação pública o Governo precisa de criar até 2030, quando a população aumentar para 40 milhões de almas