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EXPANSÃO - Página Inicial

Opinião

Realidades diferentes

EDITORIAL

Hoje existem três realidades diferentes no País - aquela que nos chega a casa pela televisão nacional, a outra que está nas redes sociais e que chega pelos telemóveis, e uma terceira, que é a que temos de viver.

O País cor-de-rosa que é vendido diariamente na comunicação social pública está a fazer mal a nós todos. Está a agravar os problemas porque se teima em escondê-los debaixo do tapete, adiam-se as soluções que deviam ser o foco do nosso esforço, dá a quem decide a sensação de que afinal está tudo bem, branqueia a incompetência e evita que as decisões sejam avaliadas e escrutinadas. Os menos capazes acabam por aparecer com "aprendizes de feiticeiros" nos écrans dos telejornais, hoje já não existe contraditório porque os três canais são do Estado e obedecem à mesma lógica de bajulação, que internamente faz também a mesma coisa - premeia os mais sabujos e não os que são mais capazes.

Esta imensa organização da sociedade baseada no envelope e no elogio disparatado, que dá destaque aos que não têm opinião mas aos que funcionam como caixa de ressonância de quem manda ou mesmo do chefe directo, está a afastar os mais bem preparados. Os mais novos estão a emigrar para fora do País e os mais velhos deixaram de ter opinião, manifestam-se apenas com um encolher de ombros. Ninguém acredita, mas também poucos assumem isso. Como nos dizia um ex-governante esta semana, "o momento é de dizer sim, não é momento de debate. Quem contesta é antipatriótico".

Não sei bem quem inventou esta estratégia, mas hoje existem três realidades diferentes no País - aquela que nos chega a casa pela televisão nacional, a outra que está nas redes sociais e que chega pelos telemóveis, e uma terceira, que é a que temos de viver. Muito diferentes claro, mas com a curiosidade de alguns, muito poucos, terem um "modus vivendi" de acordo com o país cor-de-rosa, vivem em segurança em condomínios, viajam em vidros fumados com batedores, juntam-se nos seus restaurantes e nas suas praias, viajam regularmente para a Europa e Dubai, não se aventuram para fora dos seus circuitos e acreditam mesmo que Angola é aquela da TPA.

Outros, também poucos, também acreditam que a vida está nas redes sociais, e é para lá que congregam todos os seus esforços, desenvolvem mesmo uma personalidade para aquele meio, uma outra identidade, onde destilam o seu ódio e o seu pessimismo, abdicando de lutar pela transformação que acham que deve acontecer.

E depois a maioria, que tem que viver num mundo que estes dois grupos influenciam, com todas as dificuldades, frustrações, complicações que esta Angola real tem. Com todas as mentiras que nos contam, fingimos que acreditamos porque a sobrevivência é mais importante do que a ética, pensam alguns. Mas não é mesmo! Acreditem nisso. Não podemos atirar a toalha ao chão. O compromisso deve ser com a verdade e com o País. Não é com uma realidade virtual ou com qualquer pessoa específica.