"Os direitos autorais em Angola ainda são um sonho, uma utopia"
Com um trajecto de mais de 30 anos, o interprete do tema "Azulula" considera que em Angola falar sobre os "Direitos Autorias" ainda é uma utopia porque só existem no papel, e lembra que recebeu apenas 90 mil kwanzas de propriedade intelectual por um dos seus trabalhos que está no mercado há 30 anos.
Depois do álbum "Mungole", vai agora lançar o "Liwe". Qual é a temática deste álbum?
Vou saudar os angolanos com várias sátiras sociais. A obra traz também romance porque gosto de cantar o amor para confortar as pessoas, demonstrar que continuamos a lutar para o bem da nossa sociedade. A temática não foge do quotidiano, dos problemas sociais, do pensamento da angolanidade, do desenvolvimento e da necessidade de fazer um País capaz de confortar os seus filhos.
Nesta perspectiva de confortar as pessoas, considera que os filhos de Angola devem sempre procurar preservar as raízes históricas?
Sem dúvida! Porque somos um povo multicultural, apesar de algumas situações que o País enfrenta. Às vezes temos dificuldades de aceitarmo-nos como angolanos, africanos, umbundos, tchokwes, bacon gos, etc. Precisamos trazer essa matriz para que cada vez mais o mundo nos perceba e nos conheça melhor e, só será possível se trabalharmos arduamente, com qualidade e autenticidade. O mundo precisa conhecer as nossas raízes, canções, identidade, sobretudo, a Angola profunda. As novas gerações precisam ter os seus legados, no sentido de não se perderem, não andarem sem direcção e não terem onde buscar as próprias raízes.
Era previsto lançar o álbum em 2022, e não aconteceu. A que se deveu?
Não conseguimos por questões financeiras. Começamos a gravar em Dezembro de 2021 com o objectivo de lançar no ano seguinte, mas a falta de recursos financeiros acabou por condicionar a produção e o lançamento.
Quantas músicas compõem o álbum?
A obra é composta por 13 faixas musicais, com temáticas cantadas nas línguas portuguesa e tchokwe, e variados géneros como a balada, kandoa, kasse comuna, tchyanda entre outros. Temos um manancial de ritmos capaz de tocar a alma de quem vai ouvir. Nesta obra, procuramos viajar pelas sonoridades do mundo e, aqui, a tchyanda- não é aquela frenética, é uma tchyanda- canção, porque é uma forma de ser e estar para mim. Como músico acredito que a música precisa de mais conteúdo, e ao mesmo tempo, daquela carga rítmica.
Compõe as próprias músicas? Se sim, neste álbum compôs quantas?
Sim. Mas algumas são compostas por outros autores. Penso que neste álbum compus quase todas, mas tenho algumas co-autorias, como, por exemplo, na música "tchileya" onde participa o mestre Kalembwelembwe, o Cabedal, e na música "Eu gos to" onde tem a letra de Filipe Zau. O disco tem co-produção do Jaime Chacale.
Em termos de interpretação, há colaboração de outros músicos nesta obra?
Sim, não são muitas, mas são essenciais pois deram outro "toque" ao álbum. Falo, por exemplo, da colaboração do Wilmar Nakeni na música "kajila", um tema bem concebido. Ele dedicou-se totalmente, apesar de não falar cokwe, e foi tão profissional que não se percebe a falta de domínio da língua. Temos também a colaboração do mestre Cabedal- uma figura marcante do nosso género na província da Lunda Sul, a do mestre Kalembwelembwe, meu co--produtor na música "tchileya". Entretanto, temos vários instrumentistas angolanos, estrangeiros, que emprestaram a qualidade necessária para que esta obra, de alguma forma, seja vista como um exemplo de dedicação e vontade de querer fazer melhor.
Há músicos que se limitam apenas a dar voz. Na sua opinião, o músico precisa saber compor as próprias músicas?
Acredito que não é tão relevante. Porque o músico não precisa, necessariamente, saber escrever os poemas ou as músicas. Nos países mais desenvolvidos, existem conservatórios, escolas de música, existem pessoas que estudaram somente para...















