Fábrica de fertilizantes no Huambo com capacidade para produzir 3.200 ton/mês
Situada no Pólo Industrial da Caála, a fábrica é um projecto do Grupo Mosquito e tem prevista data de entrada em funcionamento já para o próximo mês de Abril. Hoje, 80% dos fertilizantes consumidos no País continuam a vir do exterior.
A entrada em funcionamento, prevista para Abril, de uma fábrica de fertilizantes NPK 12/24/12 no Pólo Industrial da Caála, no Huambo, constitui um passo relevante - mas ainda isolado - na resposta a uma das maiores fragilidades estruturais da agricultura angolana: a crónica dependência de fertilizantes importados e a incapacidade do Estado em garantir um abastecimento regular e a preços estáveis.
Com capacidade instalada de cerca de 3.200 toneladas por mês, o projecto do Grupo António Mosquito surge num contexto em que mais de 80% dos fertilizantes consumidos no País continuam a vir do exterior, sujeitos à volatilidade cambial, a rupturas logísticas e a ciclos de escassez que penalizam sobretudo os pequenos e médios produtores. A produção local de NPK, um dos adubos mais utilizados no mercado nacional, poderá reduzir custos de transporte e prazos de entrega, mas está longe de resolver o défice estrutural de insumos agrícolas.
A escolha da Caála, no Planalto Central, reflecte uma lógica geográfica evidente: proximidade aos principais corredores agrícolas e ao Corredor do Lobito, facilitando o abastecimento das regiões centro, sul e leste. Ainda assim, a eficácia económica do projecto dependerá menos da localização e mais da sua integração no mercado agrícola real, marcado por baixo acesso ao crédito, fraca assistência técnica e ausência de mecanismos públicos que garantam a chegada do fertilizante ao produtor em tempo útil e a preços compatíveis.
Do ponto de vista industrial, trata-se da primeira fábrica de fertilizantes na província do Huambo, um facto relevante num país onde a industrialização agrícola continua a ser mais discurso político do que realidade produtiva. A aposta em equipamentos modernos e numa fase experimental controlada contrasta, porém, com a dependência quase total de matéria-prima importada, maioritariamente da Bélgica, revelando a inexistência de uma estratégia nacional integrada para a cadeia de valor dos fertilizantes.
Em termos sociais, a criação estimada de cerca de 80 empregos directos e indirectos tem impacto local, mas não altera o quadro estrutural do emprego rural. O verdadeiro teste estará no impacto sobre a produtividade agrícola. Sem políticas públicas consistentes - subsídios bem desenhados, financiamento agrícola funcional e planeamento da distribuição - o risco é que a produção nacional acabe por beneficiar apenas segmentos mais capitalizados, deixando intacta a dependência externa.
A fábrica da Caála é um avanço, mas também um lembrete das falhas do Estado: Angola continua sem uma política agrícola coerente para os fertilizantes, limitando o potencial de projectos industriais que, sozinhos, não conseguem corrigir décadas de desarticulação entre indústria, agricultura e financiamento.











