IFRS | Um passo estratégico para o mercado de capitais angolano
A adopção das IFRS pelas entidades supervisionadas pela Comissão do Mercado de Capitais constitui um passo decisivo para a maturidade do mercado de capitais angolano. Trata-se de um processo exigente, mas essencial para reforçar a confiança dos investidores e consolidar o papel do mercado de capitais no desenvolvimento sustentável da economia nacional.
O mercado de capitais angolano atravessa um momento particularmente relevante no seu processo de consolidação e amadurecimento. Num contexto em que Angola procura reforçar o papel do sector financeiro como motor de financiamento da economia, a credibilidade institucional, a transparência e a qualidade da informação financeira deixam de ser apenas objectivos desejáveis e passam a ser factores determinantes para atrair investimento e fortalecer a confiança do público.
É neste enquadramento que a Comissão do Mercado de Capitais (CMC) está a avaliar a adopção das Normas Internacionais de Relato Financeiro (IFRS) pelas instituições financeiras não bancárias e pelos organismos de investimento colectivo. Mais do que uma mudança técnica, esta opção deve ser entendida como uma decisão estratégica, com impacto directo na forma como o mercado de capitais angolano se posiciona no plano regional e internacional. Os sinais de maior atractividade do mercado são hoje evidentes.
Em 2025, a Oferta Pública Inicial do Banco de Fomento Angola (BFA) foi a maior operação bolsista do continente africano, registando um elevado interesse por parte de investidores nacionais e internacionais. Este tipo de operações reforça a percepção de um mercado em consolidação, com maior profundidade e com ambições claras de integração com os mercados financeiros internacionais.
Neste contexto, a adopção das IFRS surge como um instrumento essencial para sustentar essa trajectória de crescimento. As IFRS são normas contabilísticas amplamente utilizadas nos principais mercados financeiros do mundo e têm como principal objectivo assegurar que a informação financeira seja apresentada de forma clara, consistente e comparável.
A sua adopção em Angola responde a uma necessidade concreta: reforçar a confiança num mercado ainda jovem, reduzir assimetrias de informação e criar condições para que investidores possam avaliar riscos e oportunidades de forma mais informada. Para as entidades do mercado - como sociedades correctoras, sociedades gestoras de fundos de investimento, fundos de investimento e empresas emitentes de valores mobiliários - a conversão para as IFRS representa uma mudança estrutural. Não se trata apenas de rever critérios contabilísticos, mas de repensar processos internos, adaptar sistemas de informação, reforçar mecanismos de controlo interno e elevar os padrões de governação corporativa. Em muitos casos, exige também maior rigor e transparência nas divulgações efectuadas nas demonstrações financeiras e nas notas anexas.
Os benefícios deste processo são claros. As demonstrações financeiras preparadas de acordo com normas internacionais permitem maior comparabilidade entre entidades e mercados, facilitam a análise da performance e da solidez financeira e promovem decisões de investimento mais fundamentadas. Num país que procura diversificar a sua economia, reduzir a dependência do sector petrolífero e atrair capital privado, e estrangeiro, a credibilidade da informação financeira assume um papel central.
A adopção das IFRS contribui igualmente para o fortalecimento da governação corporativa. A exigência de maior rigor no reporte financeiro incentiva práticas de gestão mais responsáveis e transparentes, melhora os mecanismos de controlo interno e reforça a disciplina de mercado. Estes efeitos, ainda que graduais, tendem a traduzir-se numa maior estabilidade do sistema financeiro e numa relação mais equilibrada entre regulador, entidades supervisionadas e investidores.
Os desafios associados à conversão para as IFRS não devem ser subestimados. A formação dos recursos humanos é um dos principais desafios, uma vez que a aplicação consistente destas normas exige conhecimento técnico especializado e capacidade de julgamento profissional. AA estes desafios juntam-se os custos de implementação, relacionados com a adaptação de sistemas, a revisão de procedimentos internos e, em muitos casos, a contratação de apoio especializado - encargos que podem pesar de forma particular sobre entidades de menor dimensão...
*Rodrigo Alves, Manager de Auditoria da KPMG Angola











