Quando a missão muda de mãos. Continuidade ou ruptura?
A narrativa corporativa costuma vestir a mudança com palavras de progresso: reestruturação, reposicionamento, eficiência, simplificação. Mas nem toda a mudança que se apresenta sob o discurso da modernidade produz evolução. Algumas só desmontam aquilo que estava de pé, sem colocar nada no lugar.
Numa sexta-feira de Junho, ao final da tarde, a empresa comunicou oficialmente a nova configuração do Conselho de Administração. No mesmo dia, foi também anunciado um processo de ajustamento organizacional que incluiu a dispensa imediata de vários colaboradores. A seleção dos perfis desligados não foi acompanhada de critérios transparentes, nem suportada por um plano de transição documentado. Foram desconectados ativos críticos de conhecimento institucional, memória operacional, relações comerciais e práticas informais. O impacto direto manifestou-se na redução da capacidade de resposta, no aumento da incerteza e na insegurança psicológica das equipas remanescentes. O episódio evidenciou um fenómeno recorrente em mudanças de governo corporativo: a ruptura de missão sem análise de risco.
É neste tipo de episódio que a pergunta se impõe com força: o que acontece quando a missão muda de mãos? E mais do que isso: a missão mudou ou foi interrompida?
A narrativa corporativa costuma vestir a mudança com palavras de progresso: reestruturação, reposicionamento, eficiência, simplificação. Mas nem toda mudança que se apresenta sob o discurso da modernidade produz evolução. Há mudanças que apenas desmontam aquilo que estava de pé, sem colocar nada no lugar. E numa organização, demolir é mais fácil do que sustentar.
Sob o ponto de vista da governança organizacional, a questão central é determinar se a mudança representa continuidade estratégica ou ruptura institucional. A continuidade pressupõe a preservação dos pilares essenciais da missão, com ajustamentos progressivos orientados pelo contexto. A ruptura caracteriza-se pela substituição dos referenciais existentes, frequentemente acompanhada pela eliminação de práticas, estruturas, processos e pessoas associadas ao ciclo anterior. O desafio emerge quando a ruptura é conduzida sem diagnóstico, sem avaliação do impacto no capital humano e sem mecanismos formais de preservação de conhecimento crítico.
A missão organizacional é um vector de alinhamento entre estratégia, cultura e performance. Alinha objectivos económicos, expectativas de stakeholders e compromissos de valor. Não é apenas um texto institucional; é um sistema operativo invisível que orienta comportamentos, prioridades e decisões. Quando a missão muda de mãos, o que se altera não é apenas o discurso, mas o sistema de interpretação que sustenta o que a empresa considera relevante. Uma má transição compromete coerência estratégica e desestabiliza a cultura
(Leia o artigo integral na edição 863 do Expansão, sexta-feira, dia 13 de Fevereiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)











