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Eu não quis que ele se sentisse mal...

CAPITAL HUMANO

Nós ensinamos as crianças, desde cedo, a fazer os outros felizes, como se tal fosse sua responsabilidade. "Vai dar um beijinho à avó, que está triste"; "Vai com o tio, ele quer a tua companhia"; "Dá um abraço à tia, que gosta tanto de ti, para ela ficar contente" (...) Aprendemos que somos responsáveis pela felicidade dos outros".

A Patrícia viajou com alguns colegas do seu departamento para Portugal, em formação. O Ricardo juntou-se à equipa um dia depois. Tinha tomado a decisão um pouco mais tarde e não conseguira viajar com os colegas no mesmo vôo. No regresso foi a mesma coisa: regressariam todos a Luanda no mesmo dia, mas não à mesma hora. O Ricardo quis acompanhar os colegas ao aeroporto, e depois pediu à Patrícia: "Pat, se não te importas, deixas-me ficar com o teu laptop para poder fazer o relatório? Ainda vou ficar uma horas por aqui, e tenho de enviar o documento ainda hoje, e o meu laptop tem um problema qualquer de sistema...". A Patrícia olhou para ele. "Não te preocupes, Pat, sou de confiança, não vou mexer em nada!", disse o Ricardo, sorridente e simpático. "Está bem. Vê lá se não mexes em nada mesmo" - riu a Patrícia, um pouco desconfortável. O Armando chegou perto da Patrícia: "Porque é que lhe emprestaste o teu laptop?". "Ah" - respondeu a Patrícia, nervosa - "Não quis que ele se sentisse mal..."

A Florentina foi ter com o RH da empresa. Tinha ficado quase dois meses em casa e fora convocada para explicar o que se passava. Assim que se sentou diante da Maria e da Rita, do RH, começou logo a chorar. "Oh, Dona Florentina, então o que se passa?" - perguntou, delicadamente, a Maria. A Florentina explicou que começara a namorar no ano passado e que se envolvera com o companheiro sem preservativo. Descobrira, há cerca de dois meses, que ele, afinal, tinha mulher, que além disso era mulherengo, e, pior, que tinha HIV e que lhe tinha passado a doença. "Oh Dona Florentina, mas então envolveu-se sem preservativo, sem antes fazerem testes e sem o conhecer bem?" - perguntou, suavemente, a Rita. A Florentina desatou a chorar de novo: "Eu não queria que ele pensasse que eu desconfiava dele! Eu não queria que ele se sentisse mal!".

O Marco perguntou à Hermengarda, ao saírem da loja: "Como é que tu digitas o pin do teu cartão multicaixa assim, sem tapar?". "Ora" - exclamou a Hermengarda - "Não queria que a moça pensasse que eu desconfio dela! Não quis que ela se sentisse mal".

E quem nunca?

Porque é que isso acontece? Melody Beattie, em "Vencer a codependência" (1986), e Robin Norwood, em "Mulheres que amam demais" (2009), ao falarem de pessoas que sempre tentam agradar e que não conseguem dizer "não", sacrificando as suas próprias necessidades e desejos, explicam que são pessoas que, regra geral, vêm de lares disfuncionais, onde não receberam atenção e amor, aprendendo que só agradando aos outros podiam receber algum tipo de validação.

Lise Boubeau, em "As cinco feridas emocionais" (2020), por sua vez, explica que crianças que se sentiram abandonadas na infância, geralmente por genitores do sexo oposto (e o abandono pode ser a chegada de um irmão mais novo; a ausência dos pais devido a longas horas de trabalho; ficar em casa da avó ou da tia, para estudar; a morte do pai ou da mãe; ficar no hospital; etc.), tornam-se, muitas vezes, dependentes, com medo de errarem e serem abandonadas de novo, esforçando-se o tempo todo por agradar, para que gostem delas. A autora refere também que as crianças que foram humilhadas na infância (ridicularizadas, envergonhadas em público) podem desenvolver, mais tarde, um certo prazer na dor e na humilhação (masoquismo), expondo-se a situações potencialmente danosas.

Mas há outra razão. Nós ensinamos as crianças, desde cedo, a fazer os outros felizes, como se tal fosse sua responsabilidade. "Vai dar um beijinho à avó, que está triste"; "Vai com o tio, ele quer a tua companhia"; "Dá um abraço à tia, que gosta tanto de ti, para ela ficar contente"; "Empresta o teu carrinho, não vês que o menino está a chorar?". Aprendemos que nós somos responsáveis pela felicidade dos outros. E aprendemos que a felicidade dos outros é mais importante que a nossa.

Leia o artigo integral na edição 762 do Expansão, de sexta-feira, dia 09 de Fevereiro de 2024, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)