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O outro lado das coisas - a amizade da China

EM ANÁLISE

Em relação à dívida (a financeira) com a China, é consensual que esta representa hoje um garrote orçamental que impede o desenvolvimento económico de Angola. Também deve ser mais ou menos unânime que os investimentos que geraram esta dívida estiveram longe de acrescentar valor sustentado à economia angolana ou qualidade de vida aos seus cidadãos.

No dia em que escrevo este artigo, a Etiópia anunciou que não conseguirá cumprir com o próximo pagamento de juros sobre a sua dívida externa, engrossando a lista de países em processo de reestruturação soberana, que incluem já o Gana, a Zâmbia e o Sri Lanka. Todos estes países, para além de estarem no continente africano, à excepção do Sri Lanka (na Ásia), partilham de uma outra relação em comum: foram durante muitos anos abençoados com generosos empréstimos da China para grandes obras de infraestruturas.

Neste tema, foi também publicado esta semana, um artigo que deve ser alvo de uma profunda reflexão por todos. Da autoria do investigador Innocent Batsani-Ncube, e sob o título "A influência Chinesa nas Instituições Democráticas dos Países da África Austral", o autor analisa os métodos e as estratégias com que a China subjuga os Estados e governos, "encorajando" os decisores políticos o mais possível a se tornarem "marionetas de Pequim" com o objectivo do controlo global do fornecimentos de matérias-primas.

Segundo este artigo, 25% do consumo de petróleo e gás da China é garantido em África, recebendo também cobalto, minério de ferro e cobre. (Volume de comércio China- -África em 2022: 282 mil milhões de dólares americanos, em 2002 eram apenas 10 mil milhões de dólares americanos). O autor afirma que a China tem por objectivo controlar toda a cadeia de abastecimento e valor. No caso da mobilidade eléctrica, por exemplo, desde a extracção de lítio passando pela produção de baterias eléctricas, até ao carro eléctrico acabado. Toda a cadeia industrial global deve ser retirada às empresas ocidentais. O Ocidente só deve comprar produtos acabados. Os chineses continuam a rapidamente construir estradas, portos, caminhos de ferro e segurá-los após a sua conclusão. O objectivo: garantir o controle, mas também os lucros destes projectos.

Este estudo elabora ainda sobre outras tácticas e estratégias de controle utilizadas, muitas delas muito pouco abonatórias para a soberania dos países africanos. Sejam elas todas praticadas, ou apenas em parte, no final do dia Angola encontra-se hoje perante um difícil dilema no futuro da sua relação com a China. A amizade do passado trouxe claramente muitas dívidas e, claramente, não apenas financeiras. Nos últimos tempos, parece haver um conjunto de tentativas do Governo de Angola em libertar- -se de algumas destas "responsabilidades". Sou da opinião que é muito saudável que o faça. Estamos a entrar numa nova ordem mundial, em que a Europa parece ter despertado para a necessidade de maior influência nos países em desenvolvimento e os Estados Unidos já definiram uma estratégia de "desglobalização" e "reindustrialização" da sua economia em áreas chave para a sua soberania. Angola deve rapidamente escolher os seus aliados políticos e traçar uma estratégia onde possa aproveitar estas alterações globais.

Em relação à dívida (a financeira) com a China, é consensual que esta representa hoje um garrote orçamental que impede o desenvolvimento económico de Angola. Também deve ser mais ou menos unânime que os investimentos que geraram esta dívida estiveram longe de acrescentar valor sustentado à economia Angolana ou qualidade de vida aos seus cidadãos. Neste contexto, podemos olhar para história e reflectir um pouco. Em 1949, depois de 30 anos de guerra civil da China Republicana e quase um século de domínio e opressão ocidental à última dinastia chinesa pelo controle do ópio, a China conseguiu unificar-se com a fundação do Partido Comunista Chinês sob a liderança do Presidente Mao Tsé-Tung. Totalmente endividada pelo esforço de guerra e pelos acordos forçados com o Ocidente, o governo de Mao, incapaz de relançar a sua economia, recusou-se a pagar todos os títulos de dívida emitidos durante as eras imperial e nacionalista. Para anunciar a rejeição de quaisquer obrigações incorridas pelos governos imperial ou nacionalista, o novo governo emitiu um comunicado em 1955 aos governos estrangeiros dizendo que "a China não tinha a capacidade de pagar o fardo da dívida pré- -1949. A China escreveu inclusive um documento ao Departamento de Estado dos EUA afirmando que não deveria ter obrigação de pagar essas dívidas pois elas não eram essencialmente justas ou não tinham beneficiado o Pais. A história tem destas ironias.