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Grande Entrevista

"Para a indústria automóvel, a África Subsariana é a última fronteira"

MARTINA BIENE, PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO AFRICANA DE FABRICANTES DE AUTOMÓVEIS

A AAAM, que tem vindo a fazer lóbi (no sentido mais americanizado da questão) junto dos governos africanos para desenvolver a indústria no continente, defende a redução das importações de carros usados e o aproveitamento local dos recursos naturais e dos minérios essenciais para a transição energética.

O continente africano é bastante diverso, mesmo em termos económicos, com mercados mais desenvolvidos e industrializados (como no norte de África ou na África do Sul) e outros ainda por aprofundar. Como a AAAM avalia o sector automóvel neste contexto?

Temos aqui uma grande oportunidade para o sector automóvel na África Subsariana. Julgo que a previsão de crescimento do PIB nos próximos anos é de 7-8% para a região, que tem a menor densidade de carros novos do mundo. Por outro lado, a população está a crescer e o contexto é muito prometedor. A entrada de carros novos também está associada à quantidade de jovens e isto pode fazer alguma diferença no médio e longo prazo, como em Angola, por exemplo, e nos países com estas características. Para a indústria automóvel e para AAAM, a África Subsariana é chamada a última fronteira, como costumamos dizer no sector.

Em que sentido?

Já existem tantos mercados maduros, onde podemos conquistar espaço a outra marca em determinado período, mas nos anos seguintes pode acontecer o contrário. O potencial real de crescimento está em África e na África Subsariana. É por isso que estamos tão interessados em fazer parte deste contexto.

As baixas vendas de carros novos estão apenas associadas às dificuldades económicas que afectam boa parte da população destes países ou existem outros motivos que precisam de ser analisados?

A principal razão para a baixa densidade de carros novos é que, em muitos países da região, há uma grande importação de viaturas usadas. Estes mercados não amadurecem porque as viaturas em segunda-mão chegam facilmente do Japão, Europa e Médio Oriente. O fenómeno está ligado às questões económicas desses países, mas não só. Muitas vezes, também não há mecanismos de financiamento para ajudar as pessoas a ultrapassar essas dificuldades.

De que forma podem ser ultrapassados esses constrangimentos?

A AAAM procura lidar e ter relações próximas com os países que estão interessados em abordar estas questões. Neste momento todos querem fazer parte da cadeia de valor da indústria automóvel e na associação também procuramos apoiar estes esforços. Muitos países africanos podem fazer parte desta indústria. É preciso também fazer isso para promover o desenvolvimento económico em África. O primeiro passo é criar condições para fomentar as vendas de novos carros, diminuir as importações de carros usados e depois, com o passar do tempo, criar um mercado interno de carros usados em boas condições, ao mesmo tempo que se desenvolvem outras estratégias.

Em Angola também é assim, boa parte do mercado de usados é alimentado pela importação.

É uma decisão que África deve tomar. Se é puramente sobre importar viaturas será mais difícil criar indústrias locais. Este é o modelo para o futuro. Se África quer crescer economicamente, e nós encorajamos isso, seja com o aumento da produção de matérias-primas essenciais (na mineração e processamento no continente e para o continente) ou com outra estratégia, devemos pensar em novas abordagens. Isto pode ir sendo concretizado ao longo do tempo, penso até que Angola já deu os primeiros passos nesse sentido.

Qual é o caminho que a AAAM defende?

A indústria automóvel africana e os governos devem incentivar a circulação de carros melhores, que são mais seguros e menos poluentes. Se assim acontecer, o parque automóvel na região já não terá, em média, 17 anos, como acontece actualmente na África Subsariana. O nosso trabalho é falar com aqueles que estão interessados em avançar nesta direcção, mas cada país tem de encontrar um lugar que faça sentido dentro da cadeia de valor da indústria automóvel. Não vai ser possível ter 54 fábricas de automóveis em África, então temos de criar situações com vantagens mútuas. Este é o nosso programa para os próximos anos.

Em Angola, quando se fala em dificultar as importações de viaturas usadas, a sociedade costuma reagir desfavoravelmente. Quem defende medidas desse tipo é rapidamente acusado de querer limitar o acesso das pessoas mais pobres, num contexto onde as redes de transportes públicos são escassas e ineficientes. As pessoas alegam que não vão ter dinheiro para comprar um carro novo de cinco em cinco anos.

Tudo depende das decisões e do modelo escolhido por cada governo. Por exemplo, o acesso a financiamento é fundamental para o mercado automóvel. Mas isto pode ser feito de forma clássica, com os modelos que conhecemos via sistema financeiro, mas também podem ser desenvolvidos produtos de micro-crédito, entre outras opções. Tudo depende da estratégia dos governos de cada país.

Leia o artigo integral na edição 754 do Expansão, de sexta-feira, dia 8 de Dezembro de 2023, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)