Montar não é industrializar. Os limites da montagem de viaturas em Angola
Torna-se urgente que a governação incentive os promotores deste investimento a, num horizonte de médio prazo (5 anos), promoverem uma incorporação de até 90% de conteúdo local nas viaturas montadas.
Na semana passada, a imprensa nacional destacou a inauguração de uma fábrica de montagem de viaturas, resultante de uma parceria entre um grupo empresarial angolano e a multinacional Volvo. De acordo com as notícias divulgadas, a unidade terá capacidade para montar cerca de 1.000 autocarros por ano, o que poderá contribuir de forma significativa para a melhoria da mobilidade urbana e interurbana no País, para além da montagem de viaturas ligeiras.
O projecto está instalado na Zona Económica Especial (ZEE) Luanda-Bengo. Esta notícia remete-nos a um outro anúncio feito em 2020, relativo à instalação de uma fábrica de montagem de tractores e alfaias agrícolas da marca Massey Ferguson, igualmente localizada na ZEE. Nesse caso, tratava-se essencialmente de um investimento estrangeiro liderado por um membro da família real do Dubai, o Xeique Ahmed Dalmoork Al Maktoum.
Cinco anos depois, pouco ou nada mais se ouve sobre este investimento. Sabe-se, no entanto, que muitos dos tractores distribuídos a cooperativas agrícolas em várias regiões do País se encontram avariados, por múltiplas razões. Este facto evidencia a fragilidade de um modelo assente exclusivamente na montagem e reforça a necessidade de assegurar a produção local de componentes, nomeadamente peças sobressalentes, indispensáveis para garantir a operacionalidade das unidades produzidas. Tal como sucede com os tractores, as viaturas a serem montadas nesta nova fábrica não podem ser consideradas verdadeiramente "Feitas em Angola", uma vez que a quase totalidade dos seus componentes é importada.
Num contexto em que a produção petrolífera nacional se encontra em declínio, com o Executivo a prever, no OGE 2026, uma produção de 1.050 mil barris/dia, contra 1.098 mil barris/dia no OGE 2025, tudo indica que Angola não disporá de divisas suficientes para sustentar, a médio e longo prazo, um modelo de negócio altamente dependente das importações. Deste modo, torna-se urgente que a governação incentive os promotores deste investimento a, num horizonte de médio prazo (5 anos), promoverem uma incorporação de até 90% de conteúdo local nas viaturas montadas.
A aposta na produção local de componentes contribuiria não só para aumentar a competitividade das viaturas montadas no País, como também poderia viabilizar, finalmente, a produção de peças para os tractores, resgatando um investimento que, até ao momento, apresenta resultados limitados. Importa sublinhar que, caso os componentes produzidos localmente apresentem qualidade e preços competitivos, os produtores nacionais poderão ambicionar a conquista de novos mercados, particularmente no continente africano.
Para tal, a teoria económica é clara ao indicar que, em países com atraso industrial significativo, como Angola, o Estado tem um papel determinante. Investimentos em infra-estruturas rodoviárias, por exemplo, facilitariam o escoamento da produção, reduzindo tempos e custos de transporte.
Adicionalmente, através das representações diplomáticas, o Estado poderia apoiar a identificação e abertura de novos mercados externos, sobretudo em África. Recorde-se que, em 2020, o Presidente da República, João Lourenço, defendeu, num encontro com representantes da sociedade civil, a necessidade de uma concertação estratégica entre "a classe empresarial, as universidades e todos aqueles que queiram contribuir com o seu talento, saber e trabalho para que a estrutura económica de Angola seja definitivamente alterada".
A montagem de viaturas representa, precisamente, uma oportunidade para o surgimento de uma verdadeira indústria automóvel nacional. Inspirando-nos na experiência asiática apresentada, por exemplo, na obra How Asia Works de Joe Studwell, os promotores deste investimento poderiam desafiar estudantes de cursos como Engenharia Mecânica, das universidades públicas e privadas, a conceberem motores para as diversas tipologias de viaturas.
A criação de um motor desenvolvido localmente seria um passo decisivo para o estabelecimento de uma indústria automóvel em Angola, com potencial para gerar emprego, dinamizar o sector produtivo e criar ligações estruturadas com a formação técnico-profissional, o ensino superior e a investigação científica avançada. Um exemplo histórico relevante é o apoio dado pelo Governo da Índia, nos anos 80, à consolidação da indústria automóvel local através da parceria com a Suzuki.
Enfim, transformar este investimento privado num verdadeiro ponto de partida para a criação de uma indústria automóvel nacional exigirá, inevitavelmente, visão estratégica e perspicácia por parte da governação. Caso contrário, a simples montagem de viaturas com componentes importados revelar-se-á insustentável. Tal como ocorreu com os tractores, estes veículos correm o risco de, no futuro, se tornarem inoperantes, devido às dificuldades no acesso a divisas para a importação de peças sobressalentes.













