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"A arte tem um lugar diferente. Enquanto os produtos desvalorizam, a arte bem preservada valoriza-se"

ÁLVARO MACIEIRA

O artista plástico antecipa-se e reúne 50 artistas para comemorar os 50 anos da independência de Angola. Ao Expansão, o também jornalista sugere que os edifícios públicos de Luanda deveriam ser engalanados com obras de artistas locais, assim a cultura e o turismo andem juntos.

Esta semana foi inaugurada a sua nova exposição. Fale-nos um pouco dela!

É uma exposição que foi inaugurada ontem, dia 22 de Fevereiro. E há-de permanecer por volta de meio ano para permitir que as escolas de arte, especialmente professores e estudantes interessados na arte contemporânea angolana e africana ou universal, se preferirmos, façam os seus estudos, as suas avaliações, e depois encontrar biografias de autores aqui expostos, que são autores sobretudo premiados. Assim, esses estudantes terão oportunidade de enriquecer ainda mais os seus conhecimentos.

Qual é o título desta exposição?

50 Artistas reunidos na colecção Álvaro Macieira.

Porque 50 artistas?

É uma selecção. São 50 artistas reunidos para demonstrar que há a necessidade de cada vez maior união entre os fazedores, os operários da cultura, e haver maior interacção também e até troca de conhecimentos e de abordagens técnicas, na medida que esta multiplicidade é fundamental para o nosso desenvolvimento cultural, para revisitar percursos estéticos de décadas, pelo menos nas últimas três décadas.

E do Álvaro Macieira, quantas obras há aqui?

Temos provavelmente 70 obras.

As 50 obras de outros artistas fazem parte do seu acervo?

Sim, é um acervo que reuni há um pouco mais de três décadas, paulatinamente. Era um jornalista, investigador da arte e interessei- -me por arte. Ao longo desse tempo, fui também, dentro das minhas posses, reunindo autores.

Qual foi a primeira obra que comprou e de quem é?

Acho que um dos artistas mais antigos, provavelmente, se a memória não me atraiçoa, é o Massongui Afonso. É uma escultura com o título Facho, provavelmente é de 1991. E esse é um facto importante, porque isso é que vamos, ao longo deste período, esclarecer e abordar. Sendo que, autores vivos poderão vir aqui conversar com os estudantes. Então podemos digitalizar e fazer um catálogo virtual ou mesmo depois publicar um livro de arte sobre a matéria.

Nesta exposição há também obras de artistas internacionais?

Sim, eu fui aconselhado pelos colegas, e especialmente pelo curador da exposição, que está aqui representado, numa tela de 2010, a expor também algumas peças de artistas, como Naguib e Malangatana, ambos de Moçambique.

E da nova geração?

Vamos admitir que da nova geração comecei com Benjamim Sabby, no atelier, aqui perto do museu, hoje, a Avenida de Portugal, que é o lugar que chamamos de KinaMuta-MutaKina, que é Kinaxixi para Mutamba e da Mutamba para o Kinaxixi. Curiosamente, cerca de 30 anos depois, estamos a fazer uma exposição nesta região da cidade de Luanda. A obra de Benjamim Sabby é de 1997. Temos também obra de Domingos Barcas, uma tela de 1995 e Mateus Mário, estes faziam parte da nova geração quando eu comecei. Da nova geração de hoje temos, por exemplo, a Márcia Simão, que tem aqui a única peça em cerâmica e temos também obras de Ana Suzana David "Kiana".

Há mais peças de outras artistas mulheres?

Sim, houve também uma imensa preocupação de reunir jovens mulheres, ao longo dos tempos, temos nesta exposição obra de Patrícia Cardoso. Então, há aqui uma ponte entre os jovens daquele tempo e os jovens deste tempo. Mas, na arte, na minha visão, não há idade. Porque pode- -se ser muito jovem e um artista consagrado, aceite e premiado. E aqui temos a sorte de ter vários prémios nacionais de cultura.

Esses prémios acabam por incentivar também quem faz arte?

Obviamente. É como ganhar um campeonato. Eu gosto de fazer uma comparação com o desporto, quando o olheiro vê logo que o jovem é muito bom, sabe driblar. Na arte é similar, este jovem vai dar um salto qualitativo, nos próximos 10 anos, ou se calhar menos, e vamos ter um grande talento. Aquele talento começa a despontar e nós temos de tomar conta, acarinhar e dar-lhe atenção. E foi assim que no KinaMuta-MutaKina nós fizemos com os jovens.

Compra as obras de artistas jovens?

Fui comprando as peças desses jovens, obviamente, e aqui eu quero sublinhar, sem explorá-los, e eles estão aí que o digam. Muitas vezes, à nascença, o artista já é explorado. Alguém quer pagar muito menos do que a peça vale.

Isso acontece também no nosso mercado?

Sim, acontece em todo o mundo. Há indivíduos que agem assim, que reduzem um talento a zero logo à nascença e não se pode. Eu tive esse cuidado, sempre. Nestas três décadas, tive esse elemento como primordial, no convívio humano com os autores.

Essas obras expostas também serão comercializadas?

Comercializadas não. Isto não é uma exposição-venda. Mas alguém questionou: e se o Estado disser que é para um futuro museu. Respondi que, obviamente, eu cederia, sem vacilar, porque é também uma antecâmara para termos museus de arte contemporânea.

E há muitos coleccionadores?

Temos, mas não tenho muitas notícias dos acervos. Muitas telas nossas, muitas peças, são adquiridas e vão para o exterior.

A arte angolana ainda é mais comprada por estrangeiros, ou o angolano tem o hábito de comprar arte?

Nós temos notícia de pouquíssimos angolanos, mas de grande qualidade, como apreciadores da arte, como indivíduos que valorizam a cultura e a arte angolana, na sua plenitude, que preservam e compram autores nacionais. Temos de admitir que essa porta já se abriu. Já temos também jovens, bem colocados na sociedade, que despertaram para a necessidade imperiosa e fundamental de engalanarem as suas casas com obras de arte angolana.

Leia o artigo integral na edição 764 do Expansão, de sexta-feira, dia 23 de Fevereiro de 2024, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)