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EXPANSÃO - Página Inicial

Grande Entrevista

"Não vamos receber nenhum dinheiro do Governo, o financiamento virá de fora do País"

SEGUN THOMAS, PCA CONSÓRCIO QUANTEN ANGOLA

Pela primeira vez, os promotores da refinaria do Soyo, um dos principais investimentos anunciados nos últimos anos, falam publicamente sobre os pormenores do ambicioso projecto, que inclui acesso a tecnologia, protecção ambiental e novas oportunidades para médias e pequenas empresas.

O projecto da refinaria no Soyo ainda não arrancou no terreno, apesar do lançamento oficial da primeira pedra em Maio. Tem aqui uma oportunidade para se apresentar e falar um pouco sobre as suas empresas, investimentos e a razão para investir no norte do País. De que forma soube desta oportunidade e por que razão decidiu avançar?

A nossa empresa está focada em desenvolver infraestruturas para o desenvolvimento, como são as refinarias. Apesar deste nosso foco, também estamos interessados em olhar mais para as pessoas do que para os projectos propriamente ditos. Pretendemos usar este investimento em Angola como uma âncora industrial, por isso, quando falamos do Soyo não olhamos apenas para a refinaria, apesar de ser o que nos trouxe até aqui.

Olham para mais o quê?

Olhamos para a refinaria como um meio para desenvolver toda a zona do Soyo, é certo que vai providenciar um certo número de postos de trabalho, mas também vamos olhar para as necessidades da região, que é uma base industrial para o País. Vamos providenciar banda larga para toda a gente, por exemplo, não é algo directamente ligado à refinaria mas às necessidades das pessoas. Vamos implementar um centro tecnológico, vamos olhar para outros investimentos em tecnologia. O próprio centro tecnológico terá uma incubadora de negócios.

Como vai funcionar?

Em Angola, tal como noutros países, existem muitos empreendedores, mas sem o conhecimento adequado e sem financiamento. Então, pretendemos utilizar o centro tecnológico para reforçar as suas capacidades. Isto é único e inovador na região. Vamos trabalhar com o FACRA, um fundo do Governo, para que, em parceria com outras entidades, possamos encaminhar recursos para as empresas locais e promover a criação de mais postos de trabalho. Ninguém faz isto e nós vamos fazer. Pretendemos ajudar a desenvolver a região. E que as pessoas, não apenas o Governo, possam receber algo da refinaria e do projecto.

Não está a falar apenas de uma refinaria, a vossa proposta é mais abrangente?

Sim, exactamente.

Foi anunciado um investimento total de 3,5 mil milhões USD, um número "gordo". De onde virá o dinheiro? O Governo também vai investir na refinaria do Soyo?

Não vamos receber dinheiro do Governo, nenhum, o financiamento virá todo de fora do País, são instituições financeiras que vão financiar o projecto. Temos um colaborador que está na África do Sul para negociar e estruturar os financiamentos, através de fundos de capital de risco e fundos institucionais. Todo o dinhei[1]ro virá de fora do País, nada será feito internamente a este nível.

Em relação à capacidade da refinaria, o projecto já está totalmente fechado?

A capacidade mínima prevista é de 100 mil barris/dia, mas já falámos em aumentar para 150 mil. E há razões para isso. Não podemos ainda explicar tudo mas nos próximos três meses contamos desvendar totalmente estas questões. Dessa capacidade original, 40% será gasolina, 30% diesel (num formato menos poluente por causa das questões ambientais), 15% jet fuel e 15% de fuel oil. Já sei que me vai fazer mais perguntas sobre a questão ambiental.

É uma área sensível devido à proximidade com a foz do Rio Congo e as zonas húmidas que estão à volta da cidade do Soyo.

Tudo é importante desse ponto de vista. Estamos preocupados com este tema desde o início. A sustentabilidade ambiental é importante para nós. Em primeiro lugar, a refinaria do Soyo será uma das poucas em todo o continente africano que será construída cumprindo os standards mais elevados do mundo sobre a emissão de gases poluentes. Não há outra refinaria, nem na África do Sul, tão avançada a este nível. Angola deve estar orgulhosa nesta questão. O segundo aspecto em que estamos a trabalhar passa por garantir que libertamos uma quantidade mínima de emissões de dióxido de carbono, recorrendo à tecnologia mais moderna. Adicionalmente, vamos plantar 1 milhão de árvores à volta da refinaria. A nossa base é perto de uma zona de água, então vamos implementar um sistema robusto de gestão das águas residuais provenientes da refinaria, que vai tratá-las antes de serem libertadas no meio envolvente.

Relativamente às infraestruturas, o acesso ao Soyo por estrada (a partir de Luanda) é bom. Como vão resolver as questões logísticas?

Nos últimos dias, tivemos uma reunião sobre estas questões com a Sonangol Trading. Na região do Soyo, há poucas indústrias, temos a Angola LNG, com alguns pipelines, mas nós vamos construir um porto de raiz. Vai ser construído por um dos nossos parceiros, a Mota Engil, e já estamos a fazer diversas análises no local. Queremos acomodar da melhor forma os barcos que vão atracar no nosso porto.

Os produtos refinados serão escoados internamente ou também podem ser exportados?

As duas possibilidades são viáveis. De uma perspectiva puramente económica, pensamos que a tendência é serem distribuídos internamente, para ajudar o País a depender menos da importação de produtos refinados. Se for possível, queremos vender toda a produção internamente, mas se não for possível temos a possibilidade de vender fora de Angola. A Sonangol Trading tem a possibilidade de nos comprar a produção e depois escolher a quem pretende vender.

A Sonangol tem 10% do capital da refinaria. Como está a vossa relação com a petrolífera nacional?

Sim, será algo como uma goldenshare, que será concretizada sem custos para a Sonangol. Eles não vão investir directamente no projecto, o financiamento e a gestão, a construção e concepção será toda nossa. Ao nível da construção temos a KBR, Honeywell, Cisco, McDermott, internamente temos a Mota Engil. E isto não aconteceu por acidente. Somos muito apaixonados pelo desenvolvimento em África.

(Leia o artigo integral na edição 705 do Expansão, de sexta-feira, dia 16 de Dezembro de 2022, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)