A Conta Externa Angolana | Dependência petrolífera persistente e diversificação adiada
O facto de apenas três produtos - petróleo bruto, gás natural e diamantes - representarem 96,1% das exportações totais configura uma fragilidade estrutural severa.
A análise dos fluxos comerciais angolanos nos três primeiros trimestres de 2025 revela uma economia ainda profundamente marcada pela dependência de hidrocarbonetos, não obstante alguns sinais tímidos de recomposição interna. Os dados divulgados pelo Banco Nacional de Angola expõem vulnerabilidades estruturais críticas que exigem respostas políticas urgentes, consistentes e coordenadas.
Exportações
A estrutura exportadora mantém- se dramaticamente concentrada. O sector petrolífero - agregando petróleo bruto, gás natural e produtos refinados - representa 92,2% do total exportado, configurando um dos perfis exportadores mais dependentes de hidrocarbonetos a nível global. Dentro deste universo, o petróleo bruto sozinho responde por 80,1% das exportações totais, evidenciando uma monocultura exportadora de risco elevado.
O movimento mais relevante observado no período foi a redução da participação relativa do petróleo bruto, que perdeu quase seis pontos percentuais face ao acumulado de 2024, quando representava 86,0%. Contudo, esta alteração não traduz uma diversificação virtuosa da base exportadora, mas sim uma contracção absoluta preocupante: as exportações de crude caíram 23,1% em valor, reflectindo a conjugação adversa entre declínio produtivo estrutural e volatilidade dos preços internacionais.
Esta perda de receitas não foi compensada por expansão significativa de sectores alternativos. O que se observa é, essencialmente, uma recomposição interna ao próprio sector petrolífero, que não altera o padrão estrutural de dependência.
Gás Natural
O desempenho do gás natural constitui o principal elemento positivo no panorama exportador. O produto consolidou-se como segunda maior exportação angolana, aumentando o seu peso de 6,6% para 10,5% do total, um ganho de 3,89 pontos percentuais, sustentado por crescimento absoluto de 31,1% em valor.
Este movimento reflecte a expansão da capacidade de liquefação e exportação, bem como o aproveitamento crescente do gás associado à produção petrolífera. Todavia, a desaceleração trimestral desta tendência - evidenciada por um ganho homólogo de apenas 0,34 pontos percentuais no terceiro trimestre - sugere limitações à expansão acelerada deste segmento, seja por constrangimentos de infraestrutura, seja por condições menos favoráveis nos mercados internacionais.
Os produtos refinados, por seu turno, mantiveram participação residual e praticamente estável em apenas 1,6% do total exportado.
Sector não-petrolífero
As exportações não-petrolíferas representam apenas 7,9% do total, evidenciando a marginalidade persistente dos sectores diversificados. Dentro deste universo reduzido, os diamantes brutos destacam-se como principal produto, com 5,5% do total exportado, tendo ganho 1,59 pontos percentuais face a 2024.
O crescimento de 16,5% nas exportações diamantíferas resulta fundamentalmente de um aumento expressivo dos volumes (+76%), que mais do que compensou a queda acentuada dos preços internacionais (-34%). Este padrão sugere simultaneamente entrada em produção de novos projectos e possível deterioração do mix de qualidade, com implicações para a sustentabilidade futura das receitas.
As restantes categorias produtivas apresentam valores absolutamente residuais. Construções e materiais, apesar do maior ganho relativo entre as categorias menores, representam apenas 0,5% do total. Máquinas e equipamentos, bens alimentares, minérios e minerais oscilam entre 0,3% e 0,5%, configurando contribuições estatisticamente irrelevantes para as receitas externas.
Particularmente preocupante é o desempenho dos minérios e minerais: apesar dos diversos projectos anunciados para o sector mineiro, esta categoria representa apenas a oitava maior exportação, com cerca de 37 milhões de dólares, tendo registado queda de 46,1% no período. Este resultado coloca em causa a narrativa de diversificação sustentada através da mineração.
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