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"Receber um prémio em casa tem sempre outro sabor"

KAMY LARA

Começou por gostar dos bastidores da televisão e rádio e chegou a profissional de audiovisuais. Hoje, o seu primeiro filme venceu a primeira edição do DocLuanda. A necessidade de se doar aos trabalhos dos colegas alimenta as metas da Geração 80, produtora a que pertence.

Acabou de receber o prémio de melhor documentário no festival DocLuanda. Como foi receber a notícia?

Fiquei muito contente mesmo por receber um prémio em casa. Recebemos um prémio nos Estados Unidos, um em Portugal, alguns prémios no Brasil, mas receber um prémio em casa tem sempre outro sabor. E a cerimónia foi muito bonita, gostei muito.

Qual a diferença entre ser premiada fora e ser premiada no seu País?

É mesmo importante ter que perguntar isto. Principalmente porque, para já, ser reconhecida em casa é simbólico, no fundo o filme foi muito pensado para o público angolano. É claro que toca outras pessoas, todas as pessoas no mundo podem pensar e sentir coisas, mas acho que é um filme muito angolano, sobre a identidade angolana e uma reflexão sobre essa identidade. Então ver esse filme reconhecido aqui tem este simbolismo.

Os prémios internacionais podem ter influência na premiação em casa?

Por um lado acho que sim, porque às vezes temos dificuldades em reconhecer o nosso produto interno, e só quando lá fora reconhecem é que nós reconhecemos, isto acontece às vezes. Pode ter acontecido isto com o filme, mas também não houve festivais em Angola desde que o filme foi lançado. O filme também esteve numa outra premiação interna, o Unitel Angola Movie, mas também essa foi já depois de o filme ter sido lançado. Nós não temos nenhum festival com muitos anos, que entregue prémios, não temos este costume. Logo, se ganhei mais prémios fora é porque há mais festivais disponíveis.

Como surgiu a ideia do filme?

Fui conversando com a Companhia de Dança Contemporânea, com a Ana Clara Guerra Marques em específico, e partilhamos a ideia de fazer um documentário sobre um próximo espectáculo da CDC. Essa ideia surgiu porque fiquei muito interessada no trabalho dos bailarinos, em particular, porque são pessoas que não têm propriamente voz.

A arte também é uma forma de conquistar esse espaço?

Sim. Eles dão o corpo às peças e nós não sabemos o que eles pensam, porque normalmente não são entrevistados sobre as peças. Eles não têm esse espaço mediático e interessou-me muito conhecer esse lado dos bailarinos, saber o que eles pensam sobre as peças, o que eles sentem, o que eles pensam, aquilo que eles entregam. Então comecei já a filmar com todas as ideias daquilo que queria, neste caso era um documentário.

Entre filmar, produzir, realizar, fotografar. O que prefere?

Acredito que não tenho uma preferida e acho que a indústria cinematográfica em Angola, ou de modo geral, trabalhar com audiovisuais, nos obriga a sermos polivalentes, porque quanto mais coisas conseguirmos fazer, mais facilmente conseguimos terminar os trabalhos. Para mim é uma vantagem poder fazer várias coisas. Mas não acho que seja o modelo mais acertado para se fazer filmes com mais qualidade e coisas mais sérias e maiores.

O que há para além dos seus passos?

Há muitas coisas para além dos meus passos. Acho que os filmes têm essa característica de ser mais do que aquilo que eles pretendiam ser. Sinto muito isto com as pessoas que os vêem, pensam e falam em coisas que não pensei quando gravava o filme. E é interessante porque sempre que se fala sobre o filme nós aprendemos sobre o nosso próprio filme. O filme foi lançado em 2019 mas hoje, quando o revejo, já há novas coisas que eu penso e o filme me leva a reflectir.

(Leia o artigo integral na edição 672 do Expansão, de sexta-feira, dia 29 de Abril de 2022, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)