Taxistas dos miniautocarros em Luanda "fogem" da inspecção periódica
A circulação quase generalizada de miniautocarros sem inspecção periódica em Luanda revela mais do que um incumprimento isolado, expõe uma falha estrutural na regulação do transporte urbano e um recuo efectivo do Estado na fiscalização de uma actividade que assegura a mobilidade diária de milhares de cidadãos.
Numa ronda realizada pelo Expansão em diferentes praças de táxi da capital, apenas três veículos, num universo de 100 Toyota Coaster observados, apresentavam comprovativo válido de inspecção técnica obrigatória. O número ilustra um padrão de incumprimento massivo, com implicações directas na segurança rodoviária, na qualidade do serviço e na credibilidade da política pública de transportes.
A inspecção periódica não é uma formalidade administrativa, é um instrumento de prevenção de acidentes, de controlo do estado mecânico das viaturas e de protecção da vida humana. Ainda assim, dezenas de miniautocarros continuam a operar diariamente com avarias visíveis, desde sistemas de travagem deficientes a rodas soltas e falhas estruturais, sem qualquer impedimento efectivo à sua circulação.
Obrigatoriedade legal
O quadro contrasta com o enquadramento legal em vigor. O Decreto Presidencial n.º 355/19, de 9 de Dezembro, estabelece regras claras para o transporte rodoviário regular de passageiros, exigindo licenciamento, inspecção periódica e condições técnicas mínimas. O diploma, que revogou o anterior regime por se revelar desajustado às exigências da mobilidade urbana moderna, prevê sanções que podem ir até à caducidade da licença. No terreno, porém, a norma é amplamente ignorada, sem consequências visíveis.
Entre os operadores, a fuga às inspecções é justificada por alegada burocracia, custos elevados e receio de reprovação. Na prática, muitos taxistas assumem que é mais fácil e barato arriscar a multa - quando existe fiscalização - do que cumprir o processo legal, transferindo frequentemente a responsabilidade para os proprietários das viaturas, que continuam a colocar veículos tecnicamente deficientes ao serviço do transporte público.
Miguel António, taxista há 12 anos, assume essa lógica sem rodeios. "Só de pensar que o carro pode ser reprovado e enfrentar filas enormes nos centros de inspecção, preferimos resolver os problemas directamente com a polícia no terreno", afirmou. Questionado sobre os riscos, respondeu com resignação: "Deus é que nos cuida. Quando é o teu dia, é o teu dia".
A declaração traduz uma cultura de risco normalizado, onde a precariedade mecânica é aceite como inevitável e a segurança dos passageiros se torna secundária face à necessidade de rendimento diário. Uma postura que é alimentada pela ausência de fiscalização sistemática e pela percepção de impunidade.
Há, contudo, excepções. Laurindo Boio, com mais de 22 anos na actividade, defende que a inspecção é parte essencial do serviço. "Fiz a inspecção e não fui reprovado. Mesmo assim, fiz manutenção geral. Quem transporta pessoas tem de garantir segurança", afirmou, sublinhando que o problema não está apenas no processo, mas na falta de responsabilidade de muitos operadores.
As visitas do Expansão a alguns Centros de Inspecção Periódica contrariam o argumento da burocracia excessiva. Não se observaram filas prolongadas nem entraves administrativos significativos, o que reforça a leitura de que a principal razão para o incumprimento é a fragilidade da fiscalização no terreno.
(Leia o artigo integral na edição 862 do Expansão, sexta-feira, dia 06 de Fevereiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)











