Equidade com propósito: o que fazemos fora de Março conta mais
Sempre defendi a importância de usarmos datas comemorativas como catalisadores de consciência e transformação, mas quando essa valorização se concentra exclusivamente num mês, perde força e corre o risco de se tornar fútil.
Todos os anos, quando chegamos a Março, somos envolvidos nesta onda de flores, mensagens inspiradoras e eventos que celebram o Dia da Mulher. E sim, sabe bem receber uma flor, claro que sim, eu também gosto de as receber. Mas desafio-te a pensar neste tema com a seriedade que exige: o que acontece para além de Março é o que realmente importa.
Quantas flores ofereceste ou recebeste fora de Marco, apenas porque valorizas a Mulher?
Tenho sentido que, a cada ano, surgem mais eventos, fóruns e acções simbólicas de valorização da mulher - o que, à partida é positivo, mas também me preocupa. Sempre defendi a importância de usarmos datas comemorativas como catalisadores de consciência e transformação, mas quando essa valorização se concentra exclusivamente num mês, perde força e corre o risco de se tornar fútil...
A minha experiência como mentora e fundadora da Liderança Feminina em Angola (LFA) mostra-me uma realidade que se consolida anualmente, são poucas as empresas que, ao longo do ano, se desafiam verdadeiramente a investir no desenvolvimento das suas mulheres. Vejo muito foco nos eventos de Março, mas pouca consistência nos restantes meses e essa realidade entristece-me, porque assim nada irá mudar.
Por outro lado, há um movimento que me inspira profundamente: vejo cada vez mais mulheres, por iniciativa própria, a investir em si. Procuram mentorias, programas de liderança, formações, networking e desenvolvimento pessoal. Há uma vontade genuína de crescer, de se posicionar, de liderar com propósito, de aprenderem umas com as outras, de maior Sororidade e de quebrar crenças que não nos levam a lado nenhum. E, para que isto aconteça, há muita coragem, os meus parabéns a todas vocês, que decidiram CUIDAR de vocês e CONSOLIDAR a vossa liderança, pois isso, é absolutamente extraordinário. Porque quando há consciência e desejo de evolução, o caminho torna-se mais claro - e a equidade mais possível. Esta equidade é tão necessária, para podermos de facto todos beneficiar com ela.
Mas então, o que nos falta? O que podemos fazer mais, para além do Março? A resposta não é simples, mas há pontos concretos que podemos começar por trabalhar - com base na nossa experiência prática na LFA e com a certeza de que toda a transformação exige acção estruturada e coerente. Partilho convosco algumas propostas:
01. Criar programas contínuos de capacitação e mentoria. Não basta convidar uma oradora em Março. É necessário criar programas internos e externos que capacitem as mulheres ao longo do ano, dando-lhes ferramentas reais para liderar com segurança e impacto. Na LFA, já formámos e acompanhámos dezenas de mulheres através de iniciativas como a Mentoria Executiva Fénix, Inspira Mulher Líder, mentoria e coaching personalizados, e o que vemos: quando se investe nas pessoas certas, o impacto espalha-se por toda a organização, sociedade, comunidade, vida familiar e pessoal.
02. Garantir acesso justo a oportunidades de liderança. Apesar dos avanços, as disparidades são reais, a nível global, apenas 28% dos cargos de gestão são ocupados por mulheres, e em sectores como tecnologia e engenharia esse número é ainda mais baixo, de acordo com relatório Global Gender Gap Report 2023 do World Economic Forum (WEF). Em Angola, pelos parcos dados que existem e por aquilo que vejo de forma transversal, continua a existir uma sub-representação em cargos de topo. Por isso, a importância de sistemas de quotas, quando aplicados de forma estratégica, não é favorecer um género - é corrigir uma injustiça histórica. É criar um terreno mais justo, onde o talento feminino possa realmente ser reconhecido.
03. Valorizar competências e criar culturas inclusivas. Quem já me ouviu falar, sabe o quanto defendo a importância de ter-se as competências necessárias para exercer uma função. A equidade não se faz apenas com números; faz-se com mudança de mentalidade. É essencial criarem-se ambientes onde as competências sejam reconhecidas sem que se pense no género, onde haja espaço para escuta, flexibilidade, empatia e liderança colaborativa. Isso implica também formar lideranças conscientes, humanizadas, que saibam identificar e travar as desigualdades antes que se tornem barreiras intransponíveis, perpetuando-se ciclos discriminatórios.
Os números continuam a contar-nos histórias e, segundo a ONU Mulher, ao ritmo actual, serão necessários mais de 286 anos para eliminar todas as leis discriminatórias. A paridade no trabalho pode demorar 140 anos e na política mais de 160. Estes dados não podem ser ignorados, por isso, todas as acções conjuntas, de mulheres e homens, face à igualdade de género devem começar agora.
Por isso, pff as flores não bastam! Precisamos de estratégias, coragem e compromisso contínuo nas organizações, nas comunidades, nas famílias.
Leia o artigo integral na edição 819 do Expansão, de sexta-feira, dia 28 de Março de 2025, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)