Burundi assume presidência da União Africana após ano de conflitos, tarifas e divisão
Ao escolher a água e saneamento como tema do ano, União Africana salienta o "papel crucial da água no desenvolvimento de África" e a sua "crescente importância como questão geopolítica global", frisa Selma Malika Haddadi.
O Burundi assume a 14 de Fevereiro, em Adis Abeba, Etiópia, a presidência rotativa da União Africana, na 39ª Cimeira de Chefes de Estado e de Governo, que marca o fim da presidência angolana e o início da agenda de trabalhos deste ano, centrada no tema da água e do saneamento.
Para trás fica um ano difícil, que complicou a agenda da presidência angolana da União Africana, com João Lourenço a ter de lidar com a multiplicação dos conflitos, num momento em que os Estados Unidos começaram a promover o desmantelamento da Organização das Nações Unidas e o mundo entrou em acelerada transformação, após Donald Trump assumir o seu segundo mandato na Casa Branca.
No continente, assistiu-se ao agravamento do conflito no leste da República Democrática do Congo, após a tomada de Goma, em Janeiro de 2025, pelo M23, grupo rebelde apoiado pelo Ruanda, ao intensificar da guerra no Sudão do Sul e o reacender da instabilidade política em vários países. Além do golpe de Estado, em Madagáscar, registou-se uma tentativa falhada de deposição de poder no Benim e na Guiné-Bissau, o presidente Umaro Sissoco Embalo foi deposto por um grupo de militares, que inviabilizou a divulgação dos resultados das eleições gerais de 23 de Novembro.
Mas a presidência angolana também teve momentos altos. Luanda recebeu, nos dias 24 e 25 de Novembro, a 7ª Cimeira União Africana-União Europeia, evento que, num contexto de crescente volatilidade geopolítica, firmou a vontade de "promover a paz e a prosperidade através de um multilateralismo eficaz". Este foi de resto o tema da cimeira de Luanda, realizada no ano em que Angola celebrou meio século de independência.
"Nestes últimos meses em que a República de Angola assumiu a Presidência pro tempore da União Africana, definimos eixos claros de prioridades que reflectem tanto as aspirações continentais como o nosso compromisso com a transformação de África", declarou João Lourenço, na abertura da Cimeira UA-UE, referindo-se à "consolidação da paz", como elemento essencial para acelerar a "integração económica" e garantir progressos em matéria de resiliência climática e de transição energética.
"Nada disso é realizável sem que avoz de África seja efectivamente escutada ao nível da governação global, em que deveremos acentuar o nosso papel no que se refere às reformas estruturais capazes de tornar as instituições internacionais mais inclusivas e representativas, para que seja arquitectado um sistema internacional em que todos participem nas decisões em igualdade de circunstância", frisou o presidente em exercício da UA, que, a 14 de Fevereiro, passa o testemunho a Evariste Ndayishimiye, deixando em construção soluções para diminuir o peso da dívida dos países africanos (ver texto na página 8).
O presidente do Burundi promete dar continuidade ao ímpeto de construção da paz em todo o continente, como refere o seu porta-voz, Rosine Guilene Gatoni, numa mensagem escrita, divulgada a 30 de Janeiro, após reunir com o presidente do conselho de ministros do Togo, o mediador nomeado pela União Africana para a crise na região dos Grandes Lagos, Faure Gnassingbe. A deslocação de Gnassingbe ao Burundi, acompanhado por três facilitadores da UA, enquadra-se nas discussões que antecedem a presidência rotativa do Burundi, como afirmou Gatoni citado pela agência chinesa Xinhua.











