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Opinião

IA, serviços e trabalho humano em Angola e África | Uma leitura económica, social e teológica em chave de estratégia

Convidado

Em Angola, a economia caminha com um pé no mercado e outro no improviso. E é precisamente aí que o algoritmo encontra a sua presa mais fácil: a tarefa mecânica.

I. Algoritmo e Espírito: cartografia do campo de batalha

"A supremacia pertence a quem conhece o terreno, mede o tempo e governa a si mesmo"

Sun Tzu

O "algoritmo" é artefacto de presciência estatística: aprende por iteração, antevê por inferência, recomenda por correlação. É máquina de probabilidade, liturgia do padrão, oráculo de frequências.

O "espírito", porém, escapa à tirania do número: é dignidade ontológica, intenção teleológica, discernimento prudencial, liberdade responsável e vocação para o sentido último. Em Angola, este embate é agravado por uma tecnocracia de especialidade económica: quando a governação se deixa capturar por métricas, o juízo moral estiola-se, a política degrada-se em contabilidade e a pessoa dissolve-se em indicador.

Paolo Benanti lembra que a questão decisiva não é o que a IA executa, mas que antropologia fica inscrita no código. No mesmo horizonte, Papa Francisco adverte: a IA deve servir a pessoa e o bem comum, sob pena de degenerar numa tecnocracia sem rosto humano

II. A guerra das tarefas precede a queda dos empregos

"Quem assegura as linhas de suprimento conquista antes de combater"

Carl von Clausewitz

A economia dos serviços mostra que a substituição não começa nos empregos, mas nas tarefas. Primeiro sobrevém o aumento: a máquina executa parcelas; o humano permanece como operador e mediador. Só depois, quando as tarefas ficam cobertas, ocorre substituição ampla. Quatro inteligências ordenam esta ofensiva: mecânica (rotina), analítica (cálculo), intuitiva (decisão sob incerteza) e empática (confiança e cuidado). À medida que a IA ocupa o domínio analítico, a vantagem humana migra para o intuitivo e o empático - cidadelas tardias, não inexpugnáveis

(Huang & Rust, 2021).

III. Choque precoce, assimetria africana

"O terreno acidentado multiplica emboscadas"

Sun Tzu

Em Angola, a economia caminha com um pé no mercado e outro no improviso. E é precisamente aí que o algoritmo encontra a sua presa mais fácil: a tarefa mecânica. Quando o quotidiano laboral se concentra em registar, atender, cobrar, preencher, transportar, reconciliar, carimbar - então a automação não chega como vector de substituição IA-homem.

A ameaça é assimétrica: não incide primeiro sobre quem dispõe de contrato e amortecedores; abate-se sobre quem vive do fio do dia. Os números sentenciam: com informalidade superior a 90%, a "queda" ou substituição IA-homem raramente traz seguro, reconversão ou renda de transição; a ocupação concentra-se em conta própria e trabalho familiar não remunerado.

Quando a modernização dos sistemas centrais acelera, pode desalojar legiões sem armadura social. O risco excede o desemprego: é vulnerabilidade estrutural, porque atinge trabalho precário, rendimentos erráticos e vidas sem ponte.

VI. Automação sem indústria: a pinça estrutural

"Sem retaguarda produtiva, todo o avanço é miragem"

Máxima estratégica

O percurso histórico foi escada: agricultura indústria serviços digital. Em vasta África, muitas vezes é salto: agricultura informal serviços digitalização.

Eis a armadilha: automação sem industrialização. Mesmo com crescimento do sector terciário, o emprego nos serviços em Angola situa-se em torno de quatro décimos do emprego total (World Bank). Porém, sem retaguarda industrial e agro-industrial que acolha a mão-de-obra libertada, a IA ergue arquipélagos de produtividade, enquanto o emprego digno se eclipsa no continente.

O termómetro seco desta fragilidade é o PIB por pessoa empregada (PPP): revela a magreza estrutural do valor criado por trabalhador. Sem retaguarda produtiva, a produtividade não se converte em prosperidade partilhada. Em Angola, este indicador permanece modesto face às economias industrializadas, denunciando a dificuldade em transformar esforço em rendimento sustentado.

O resultado é uma pinça: exclusão juvenil, migração económica, economia de sobrevivência e dependência do Estado.

(Leia o artigo integral na edição 862 do Expansão, sexta-feira, dia 06 de Fevereiro de 2026, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)

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