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Posso garantir: isso jamais aconteceria comigo!

EM ANÁLISE

Quando nos disserem "A culpa é tua, tu permitiste que ele te tratasse assim desde o princípio, agora não há nada a fazer", nós podemos responder, com justiça: "Eu aceitei no início, mas eu posso, a qualquer momento, mudar a minha resposta". Sim, a qualquer momento.

A Amélia foi até à copa. A Valéria e a Isabel já lá estavam. "Então, meninas?", cumprimenta a Amélia. A Valéria lança-lhe um olhar preocupado. A Amélia vê que a Isabel está a chorar. "O que se passa?". A Valéria explica que o chefe de departamento foi, mais uma vez, completamente inapropriado com a Isabel, ameaçando-a com a abertura de um processo disciplinar, só porque se lembrou de que deveriam reunir exactamente naquele momento, sabendo muito bem que era a hora do almoço, e vendo até a Isabel já com a lancheira na mão, a caminho da copa! "O que é que lhe disseste, Isabel?" - pergunta a Amélia. "Só lhe disse que ia comer, mas que já voltava", choramingou a Isabel. "Tu és muito mole Isabel, desculpa lá que te diga!" - exclama a Amélia - "Ele só fala assim contigo, porque tu deixas! Comigo, ele jamais falaria assim! Punha-o no lugar em dois tempos!".

O Ricardo dá uma palmada no ombro do amigo: "Epá, Jorge, tens de aprender a desligar o telemóvel durante o fim-de-semana. Ou então deixas de o atender. Senão não descansas". O Jorge olha, estarrecido, para o Ricardo: "Acho que o meu erro foi ter atendido sempre, mesmo aos sábados à meia-noite. Agora o chefe habituou-se. E ele sabe que eu me deito tarde, não adianta fazer de conta que estou a dormir. Tenho mesmo de atender". "O teu erro" - altera-se o Ricardo - "foi não teres cortado isso logo no início. Agora aguenta! A culpa é tua, que não soubeste estabelecer limites! Eu, assim que saio do escritório, deixo o telefone do trabalho na pasta. Todo o mundo já sabe".

Há aqui situações a que estamos habituados e percepções que são quase automáticas. Acreditamos que, se algo nos é feito, é porque nós permitimos. É essa também a nossa reacção face ao bullying escolar, que os nossos filhos sofrem na escola: ralhamos com eles, explicando- -lhes que eles têm de responder na mesma moeda, caso contrário, serão eternas vítimas. Pensamos o mesmo de nós, no contexto de trabalho: "Se ele fala assim comigo, é porque eu permito". Ou então, assumimos uma posição mais musculada: "Comigo, ninguém se atreve a falar assim!". Como se o comportamento dos outros estivesse sob nosso controlo. E não está.

Importa começarmos por eliminar esta nossa tendência para culpabilizarmos a vítima. Porque é isso que estamos a fazer, quando dizemos: "A culpa é tua! Tu é que permites que ele fale assim contigo!", ou "Comigo, ele jamais teria coragem de falar assim! A mim, ninguém trata com desrespeito!". Então, se alguém nos trata mal na escola ou no local de trabalho, a culpa só pode ser nossa, certo? Errado.

Há, sim, atitudes nossas que podem mostrar ao agressor que nós temos um perfil mais submisso ou mais gentil, que não gostamos de conflito, e que, tendencialmente, acreditamos que um chefe deve ser sempre atendido e as suas ordens sempre cumpridas, mesmo que estejamos com uma gripe brutal e vontade de morrer enterrados debaixo das mantas e dos chás de limão com mel. Mas - e isto é muito importante! - sermos mais submissos, mais gentis, menos conflituosos, ou até menos assertivos não é crime. O outro continua a ser responsável pelo que faz. E se o que o outro faz é gritar connosco ou ameaçar- -nos, os gritos e as ameaças continuam a ser exclusivamente responsabilidade dele.

Há comportamentos de risco, que devem ser evitados. Se eu deixar a minha bolsa e o meu telemóvel na cadeira do condutor e sair do carro, esquecendo-me de o trancar, é muito provável que não encontre a bolsa nem o telemóvel quando voltar. Talvez até nem encontre o carro. Eu devia ter sido mais cuidadosa. Mas eu continuo a não ter cometido qualquer crime. A responsabilidade do roubo é de quem roubou. (E, já agora, por incrível que pareça, há outras realidades e comportamentos possíveis. Há cerca de 20 anos, em visita a Helsínquia, na Finlândia, saí do carro dos meus amigos e vi que eles deixavam os laptops e outros objectos pessoais à vista. "Não vão esconder essas coisas? Não têm medo de ser roubados?". Sorriram. Quem iria roubar? Para quê? Ainda me deram outra informação que me surpreendeu: na rádio, frequentemente, passavam informações referentes a telemóveis encontrados em bancos de parques e casas de banho, para que os seus donos os fossem recolher na estação de rádio.)

Leia o artigo integral na edição 758 do Expansão, de sexta-feira, dia 12 de Janeiro de 2024, em papel ou versão digital com pagamento em kwanzas. Saiba mais aqui)